Abordagem ao problema pedagógico da minha faculdade

A minha faculdade – e falo da minha porque é a única que conheço com a profundidade de a frequentar – tem claramente um problema pedagógico ou, pelo menos, um evidente défice de eficiência pedagógica.
É um quadro mais ou menos típico: alunos sentindo-se obrigados a estar presentes nas aulas, professores pouco preocupados, ou sem condições propícias, para desenvolver um discurso pedagogicamente linear e coeso, clima de ansiedade na participação, professores cansados e mal compensados (ou não-pagos), alunos prejudicados em estruturas horárias mal pensadas e injustas, baixa diversidade de abordagens pedagógicas… e acho que posso ficar-me por aqui.
Certamente que haverá um conjunto complexo de pequenas causas para explicar muitas destas pequenas ineficiências, mas, para mim, há duas grandes explicações a basear esta ineficiência, a um nível global: o facto de termos um sistema universitário relativamente recente na sua índole massificada (em comparação com países tidos como mais desenvolvidos, que não apresentarão este grau de ineficiência pedagógica) e o facto de esse sistema estar cronicamente subfinanciado (e, no meu contexto, em certa medida também um sistema de saúde, em constrição já algo prolongada).
Ou seja, isto deverá explicar sobretudo as componentes administrativas, tecnológica e infraestrutural desta ineficiência. Contudo, refiro-me a “componentes” porque ainda não me convenço de que basta isto para explicar uma parte substancial do problema que aqui se analisa. Tal como fiz aludir no “quadro típico” que atrás traço, julgo que há um problema na dimensão humana da relação pedagógica entre docentes e discentes.
A preponderância do problema nesta dimensão ou, antes, o grau de banalidade daquele quadro, também poderá ser explicado pelo espaço que aquelas grandes explicações deixam do que através delas não se faz: num clima institucional, ou empresarial, financeiramente constritivo, o mais natural é que se tente que a eficiência seja mais obtida dos recursos humanos (porque eles são a base e essência das construções institucionais, e quase sempre restantes no contexto de políticas constritivas). Ou seja, por via daquele clima ter-se-á evidenciado mais o pendor humano desta problemática, o que ter-me-á permitido identificá-la.
Ora se estamos numa dimensão humana, então o mais provável é encontrarmos também uma dimensão cultural. E é aqui que reconheço um problema importante, que tem sido pobremente abordado, a meu ver: estamos a ensinar heurística protestante através de pedagogia católica decadentista.
Em termos concretos, misturamos a “guidelinização” com a oratória unívoca e de pedestal, e com a aprendizagem memorialística; desvirtuamos a prática, e a aprendizagem pela via da prática, com a arrogância do academicismo teorista, herdeiro do pior bibliofilismo; subvertemos a avaliação, convertendo-a de um exercício validador para uma prova expurgadora.
E podia continuar. Vivemos pedagogicamente mal muito porque vivemos nesta ambiguidade. Temos sido gerações que vivem sobre isto, e que não têm resolvido isto. E isto não significa que se produzam maus profissionais (nem em termos relativos, até porque noutros países, e mesmo naqueles tidos como desenvolvidos, outros contextos problemáticos estarão a fazer o seu papel), mas com certeza que significa que se produzem profissionais de um modo sistematicamente sub-óptimo. E significa, se esta foi uma boa identificação de um problema, que assim, pelo menos, talvez o possamos ver claramente, para o abordar.
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Deste amor que morreu

“Deste amor que morreu, o que posso eu fazer do seu brilhante restolho? Dilacerar-lhe em mim mais o seu cadáver para que nem o Destino o tome? Assumir o sagrado da sua beleza e viver para ela? Qual o equilíbrio, se tal existe, que o deixa viver em mim e não me há de tolher? Ou é este mais um daqueles pontos da vida onde sou obrigado a me reinventar, e formar aquele que há de desconhecer este algo fundamental que antes habitava?”

tinha eu escrito, talvez há um ano.

Podia dizer que acabei por me inclinar mais para a resposta afirmativa à última pergunta, mas sinceramente acho que apenas fugi de todas elas, do seu insuportável peso.

Ando a limpar o meu mais recente “banco” de notas.

A condição solitária

A vida é fundamentalmente um empreendimento solitário porque ninguém nos acompanha durante mais tempo do que nós mesmos.
E bem pode ser que o individualismo seja uma invenção tardia da Humanidade, mas a mim surpreende-me o quanto absorvemos na vida de modo estritamente pessoal, por via daquela regra, e, portanto, não entendo como pode isto alguma vez não ter sido assim, e alguma vez não termos sido “indivíduos”, nalguma época da história ou da pré-história.
Quantitativamente falando, um tal desmesuramento entre informação absorvida pessoalmente ou comunitariamente deveria levar a que fosse extremamente difícil encontrarmo-nos com outros indivíduos, o que não acontece. A não ser que o nosso ser não seja público, isto é, que em cada um de nós exista um outro ser para ser público. Um ser para cada outro ser, ou conjuntos variáveis de seres.
Porque a verdade é que cada um de nós é este conjunto particular de informação do qual nem uma pequena parte sabemos explanar a totalidade, quanto mais escrever sobre ela, ou sobre o todo.
No fundo, aquele ruído interior e nosso, indefinidamente memorialista, escondidamente inquieto, calmo, que sentimos quando paramos num lugar onde só nós estamos a acontecer.

Ainda a infinitude do presente

Continuo a acreditar que tudo o que envolve a agência humana tem uma raiz artístico-histórica, mas o incrível é que, muito provavelmente, mesmo dando a um qualquer ser extra-terrestre, racional e consciente, tudo o que de humanamente artístico foi alguma vez feito, nunca ele, se colocado depois num momento qualquer da história humana, a ver uma cena entre humanos, poderia prever a maioria das coisas que entre aqueles ocorressem.
Mais um caso a suportar a infinitude do presente.

Mais um

Subo a ruela altamente inclinada, ao sol da tarde. Pausadamente, lentamente.
À minha esquerda, aquele portão de ferro, verde, que tão bem conheço. Atende-me a voz habituada pelo intercomunicador. Entro. Caminho por um corredor calcetado e abrigado por roseiras até à porta da casa.
A cozinha limpa, e a minha avó a dormitar à mesa. Está fresca a casa.
“Boas! Então avó, tudo bem?”
(está a abrir um olho enquanto passo pela porta)
E baixo-me bastante para a cumprimentar quando chego à cadeira.
“Adeus menino”
(automaticamente, baixinho, e com um pequeno sorriso. Como sempre me cumprimentou)
“Então o seu neto faz anos hoje, ã?! 22! Veja lá senhora!”. É a minha tia, também chegada, a lembrar-lhe.
O meu avô a dormir na sala, o pequeno televisor ligado em cima do frigorífico, restos de vários doces no aparador, a casa com a paz de estar limpa.
“Dois patinhos”, diz-me.

 

 

 

O “eu”

Aquilo que sou não é um filho. Nem, eventualmente, um pai. Nem um amante. Nem um líder. Nem um mártir. Nem outro qualquer elemento de algum modelo de relação binário.
Quando sou filho, por exemplo, eu continuo a saber que há coisas de mim que não são, pelo menos inteiramente, de eu ser filho. Como coisas de ser amante, por exemplo. Tal como em ser amante não haverá coisas de eu ser mártir, por exemplo, ou até poderá haver.
Dizem que Rimbaud, depois que proclamou “eu sou um outro”, inaugurou a modernidade (e, portanto, também a nossa mais actual verdade). Freud, no encalço, ainda proclamou a explicação do “eu” como conjunto tenso de três inovadoramente estranhos conceitos (id, ego e super-ego), mas já aí falhava em ser cabal, já aí falhava em capturar explicativamente essa entidade, a fugir-lhe também a ele como comboio desgovernado em direcção ao futuro.
O que é que eu acho que isso de se ser “um outro” significa, o mais concretamente possível?
Para já, um olhar puramente gramatical sobre a afirmação dita o tom do seu conteúdo: está a definir-se o “eu” – expoente máximo (mais íntimo) da subjetividade – através de, não apenas um, mas dois termos indefinidos (um artigo – “um” – e um determinante – “outro”). A contradição aqui envolvida, tão moderna, é gritante.
E como é que é isso de se ser “um outro”? Modelos de relação binário, como aqueles que atrás apresentei, não se aplicam aqui. Aliás, são a isto radicalmente opostos.
Indo além deles, podemos dizer que somos um elemento, sempre particular sem dúvida, mas maioritariamente derivado de uma certa comunidade com um certo âmbito. Certamente que isso vai mais ao encontro da impessoalidade daquela definição “indefinida”.
Porém, a natureza deste modelo não é essencialmente diferente da natureza do modelo binário. Nesta tentação de nos inserirmos em toda a nossa abrangência como seres explicados, alargamos o âmbito dos conceitos de “comunidade” que querermos usar como explicação. Porém, cedo demais, esses conceitos, essas palavras, deixam pura e simplesmente de nos explicar, de nos ver sequer, ou deixam até de significar o que quer que seja de palpável. Ou seja, em que é que ser português me explica? Ou ter frequentado uma certa turma de um certo liceu? Ou em ser “ocidental”? Ou em ser “humano”. Explica diferentes coisas. Porém, todas insuficientes, como facilmente se percebe.
Há que procurar explicação noutros mundos, noutras concepções da realidade. Podemos então dizer que somos aquilo que em nós é desejo, ou dor, ou medo? Ou podemos dizer que somos aquilo que em nós é inconsciente?
Parece-me que também não. Em todos esses conceitos, como nos outros que já exclui, há alternatividade, onde o “ou” é, portanto, meramente uma construção teórica. Isto é, não podemos afirmar que somos o que em nós é desejo porque, por definição, também temos na vida a dor. Tal como não podemos afirmar que somos o que em nós é inconsciente, porque também nos sabemos conscientes.
Vacilamos: será que não esgotámos já todos os modelos explicativos possíveis? Será o caso de as palavras que existem, que fomos criando, não servirem ainda para formular uma resposta a esta questão, como se isso anunciasse que, por condição, vivemos tragicamente alheios daquilo que realmente nos explica?
Não estou à espera de encontrar uma resposta monoteísta. Isto é, de encontrar a resposta que radique num único conceito. Mas julgo poder esperar por modelos explicativos, porque esses sim são o limite mais alto da palavra.
Voltemos ao que afirmou Rimbaud: o que é que explicitamente significa aquela afirmação (“eu sou um outro”)? E que modelo explicativo tem ela como implícito?
Para a primeira pergunta, que não existe o “eu” como conceito com a sua significação própria. Ou seja, que ele é, talvez de modo supremo, o derradeiro objecto composto. E que é, também, o “eu” como conceito que se explica pela sua própria negação, o “eu” explicado pela alteridade.
Tal como não existe paisagem terrestre intocada pelo Homem (com a excepção de algumas longínquas neves antárticas), também não existem produtos do “eu” historicamente alheios. Ou, talvez em certas incursões criativas dele, mas certamente que não nos modos quotidianos do “eu”.
“Apaixonamo-nos” por razões artísticas, conhecemos pessoas por razões sociais, “acabamos” relações por razões religiosas, escolhemos soluções para problemas concretos por razões económicas. Ou várias combinações destas acções com estas explicações. Porque, assim acredito, já as vi.
Concretizando, vejo que, a nível de modelo implícito, o que há é o mundo humano e o fluxo significante que ele é. E não acredito que somos homogeneamente parte do mundo, isto é, não acredito que os “eu” sejam estruturalmente indiferentes quando comparados a tudo o resto que também constitui esse fluxo (como objectos, por exemplo). Vejo os “eu” como pontos de alta densidade significante, que guardam em si, portanto, a maior complexidade e maior capacidade, por oposição a tudo o que dele está fora, muito mais simples. Vejo, na análise significante do mundo, os “eu” como núcleo atómico, e tudo o resto como nuvem electrónica deles.
É só depois disto, desta premissa mecanicista, que os “eu” se podem explicar na diferença que intrinsecamente os identifica em relação aos seus demais. Depois da base objectiva, chegamos então ao âmago subjectivo. Que é o que tão dificilmente se consegue explicar.
Esta é uma questão à qual me vejo retornar. Como várias outras, dou por vezes por mim a actualizá-la mentalmente. Nalgumas ocasiões, isso resultou directa ou indirectamente num texto (alguns aqui publicados). Ainda assim, tem sido para mim como que uma fonte de perplexidades.
Apesar do muito que já formulei a este respeito, só me consigo sentir palpavelmente seguro numa explicação também de teor mecanicista para esse âmago subjectivo: vejo o “Eu” como a ilusiva recorrência em que consistentemente me vejo acontecer. Uma recorrência feita daqueles elementos que constituem o modelo de inspiração rimbaudiana a que atrás me referi. E tento extrapolar isso para explicar os “eus” outros.
Para além disto, todas as explicações avançadas têm-se revelado perversamente subjectivas.
 //
Mas então, se pelo menos me acredito como recorrência, e se isso objectivamente explica e determina a grande maioria da minha vida, eu pergunto-me, para o meu caso e para o caso geral: pode alguém ser maior do que aquilo que é? Pode alguém ser isso que implica uma forma de mudança, nem que seja extemporânea, mas que indelevelmente deixa uma marca da sua existência?
Sim, para lá da dor.
Sim, em conjunto com outros.
Sim, na obra que nasce do trabalho criativo.
Por agora, não conheço outras vias. E também não conheço outras explicações.

Conto #1

// E como se a manhã nascesse já tombada para a noite //
“És e fazes tudo aquilo em que uma rapariga deixou de acreditar que era possível ver, e há tanto tempo já. Ainda por cima, moves-te numa altura disso que eu não cheguei sequer a ver, e então eu nem te sei acompanhar por aí. Não te sei acompanhar onde o meu maior desejo já ardeu, e é incrível, isso. És lindo para mim, é tudo o que posso dizer, e tão grande…”
(os dois deitados, nus, ela sobre e ao longo do lado direito dele, encostada com a cabeça entre o peito e o ombro dele, a admirar-lhe o pescoço endurecido e respirante, e a partilhar-se nestas coisas com o abrigo da cabeça dele por cima.)
(Ouvem-se por vezes carros a passar na rua que está longe, estão numa casa no campo.)
Ele achava a ideia exagerada, mas o tom dela não, totalmente. Concedeu a dar a isso um raciocínio, e então pensou “ela disse três frases até longas…”. E não, realmente, nenhuma palavra ali tinha destoado. Estava a olhar em frente, descansado, e sorria. Preferia apreciar a proeza artística que havia naquelas palavras, não queria chegar à vaidade do que elas lhe queriam fazer ver, mas nem precisava de fingir que não estava satisfeito nesse recuamento. Curioso aquilo, mesmo.
(pendeu a cabeça e viu-a ainda quieta e encostada. Estava com a cara espantada e pensadora, a olhar para o outro peito dele.)
Lembrou-se entretanto de outra rapariga, de há umas semanas. Num bar, numa noite normal. Bebe, faz o seu tempo com os amigos. Então, vê-a de relance. Fica interessado. Aguarda que as rotas de cada um se cruzem honestamente. Na oportunidade de maior proximidade (era já noite alta e a dança estava a entrar naquele seu planalto quase cego) roça-se ligeiramente nela. Ela não se afasta, parece não ter notado o toque. Mas estava a testá-lo, queria mais coragem dele. Nem era para chegar a via de palavras (não se ouvia bem ali, e ela não estava para poder ficar desiludida nisso), era só para ela sentir persistência no encostar. Ele, por si, decide-se mesmo a isso. E ela vira a cabeça para ele, com rapidez de surpresa (só que ligeira e deliberadamente mais lenta), quase sisuda, mas com o cuidado de não a deixar determinar-lhe o olhar. O olhar, se ele o soubesse ler, guardaria o verdadeiro querer dela. Ele estava a progredir bastante rápido, por isso elevava a barra para a sua sensibilidade. Iria ele reparar no esquema? (pensou antes mesmo de ter virado a cabeça). Reparou mesmo. E ela então viu-lhe o sorriso, confiante, mas humilde, mantendo-se imóvel, persistente, perante o gesto dela. Ela via um rosto, bonito até, por entre tons de azul das luzes da pista de dança. Um sorriso que a olhava, sem receio, directamente nos olhos. (É perspicaz até demais, pensou algo surpreendida). E fez por adormecer quase toda a cara, para não quebrar já. Sentiu um aguçar no baixo de si, vindo de dentro (terá inconscientemente mandado para lá a reação, para não lhe aparecer na cara). Nem ajeitou o cabelo, como ia espontaneamente fazer, só para não parecer minimamente perturbada. Virava então de novo a cara, para a posição inicial, e quando finalmente todo o perfil dele lhe desapareceu do olhar sorriu levemente, só para si.
Estavam entregados um ao outro, no apartamento dela. Avançavam confusa e freneticamente, porém sem surpresas. Estava até aborrecido, ele. Tinha largado outra vez a imaginação, antes, no bar, bem mais do que o que poderia esperar acontecer. Desta vez tinha sido mesmo louco. Era assim, ele chegava ao pé dela, encostava-se, como foi o que aconteceu, mas depois ficava só muito direito, relaxado, com o olhar completamente despido, para ela. Ela, confusa e intrigada, porque o olhar dele era realmente despido, decidia-se a quebrar o protocolo de não ser ela a fazer os avanços. Punha-se de frente para ele, sem nunca deixar de estar a dançar. Ele mantinha-se, por um pouco, como estava, e depois dava dois passos, pousados, na direcção dela. Ela segurando o olhar, a expectativa. Ele a estender a mão até ela, como um amante através da morte de um amor antigo. Como?, pensa ela para si (mas se é só ele quem está a ver tudo isto). E toca-lhe no pescoço, mantendo a postura tão direita, e acaricia-lhe o pescoço, com a outra mão também. Sente-se amolecida de repente. O álcool está a ajudá-la, tudo está a ajudá-la, sente-se muito ajudada. Quer dizer-lhe “ensona-me. ensona-me, continua…”. Os dedos dele estão a abrandar-lhe no pescoço. Despousa então dele uma mão, e a outra. Ela sucumbe, ao sono, ao desejo, são várias as coisas que a estão a encher e interromper. Ele volta a estender-lhe a mãos. Está a dirigi-las para o colarinho dela. Continua com o mesmo ar pacífico. Desaperta-lhe um botão. Depois, o seguinte. E o seguinte (ela sente uma pequena corrente de ar no peito, percebe também que estava a suar muito até agora). “Ele pode sequer fazer isto?”, pensa, mas ela afasta de si a pergunta, e deixa o sono submergi-la. Ergue os olhos para ele, e ele está a subir-lhe a mão pelo fundo das costas, puxando-a gentilmente para ele ao chegar à curva da coluna. Beijam-se, alheio, perdidos, sorridentes, a camisa branca dela completamente aberta. O soutien negro dela escondido e mostrado entre os movimentos dos beijos. Como se a dança nunca tivesse parado de ser a mesma.
No apartamento dela tinham já terminado de se amar. Tinha sido bom, ainda que para ele tivesse passado depressa. Como se tivesse voltado, apercebe-se do longo pensamento interruptor. Só que logo começa a surgir-lhe um espectro, insinuante, a substituir-lhe a ideia. Já sabe o que é. “Porra”, pensa, e já sabe o que vai ser. Não se devia ter demorado tanto na navegação daqueles espaços. Eles acabavam sempre por dar algo de si, por insistir na sua própria e profunda e inconsciente versão. Ia para uma batalha, outra vez, e ia já rendido. Ia (mas ela, ela sim, já lhe estava a surgir inteira, como naquela vez em que fugiram de tudo só para se amarem. Toda ela era veludo, lembra-se bem, os toques cuidados, tão enrolados, e subtis, e mergulhados de carinho, e ambos frágeis, tão frágeis, em si e um para o outro, a deixarem-se afundar de mortos nessa fragilidade. E era tão doce tudo, os sentidos a levá-los ao profundo, e a superfície, a pele de cada um, sendo lentamente uma só, que os cobria ambos, e a aí viverem pacificamente frágeis enquanto se acariciavam, nesse lugar quente e escondido no âmago conjunto de ambos, onde, bem acima das suas aí sonhadas cabeça, a transpiração era para a pele, que era céu, uma suave e morna chuva invertida, os sentidos de cada um a chocarem um no outro como explosões celestiais).
Então, agora, uma lágrima fendia-lhe o olho. Via a luz, a luz dobrar-se para chegar-lhe e entrar nele, contornando aquosamente aquele globo pingado e triste. E essa nova lente descia-lhe com melosidade pelo olhar, até que ele pestaneja e ela, macia, estendia-se agora completamente, lavando todos os quadrantes da visão, e então ele reabre os olhos e aí tem o outro mundo, esse mundo que lhe é profundamente real, um irónico mundo marítimo, como de uma história infantil (observação inadvertida que, com esse tom, o faz chorar ainda mais), das profundezas, mas mais das dores, sim, era das dores, olhava para cima nesse sonho e um dia distante brilhava-lhe para lá da colossal espessura da camada de água (tinha os olhos fechados, e a garganta molhada engolia em seco), era a mesma perspetiva da memória que havia ainda agora evocado dela, meu deus, em que nervo estaria ele a tocar agora, e era ela, era ali ela, ela, ela era isso, ela, ela era a mãe do seu amor.
Um dia, tinha-lhe dito: “todas as palavras que te dirijo saem erradas. Mas eu sei que temos morrido um para o outro, e até cada um em si. Então, que sejamos mortos, ou quase. Pego-te na mão e, por isso, dançamos. Dancemos.”
E foi assim que, finalmente, adormeceu.

O dilema, as abstracções, as palavras

Um tímido que permitiu e acalentou em si a construção do amor como maior possibilidade redentora.
Alguém que, assim, se vê comprimido entre uma força interna e uma externa, cada uma inevitável.
Uma aposta nitidamente desastrosa. Nem é preciso grande psicanálise para chegar aí.
Fala-se de modo teórico do dualismo mente-matéria, mas há por aqui uma dimensão bem concreta dessa questão: uma vida que, ainda muito antes de ser capaz de articular abstracções, se vê cruamente afectada por elas – a timidez primeiro, o amor depois. Ainda que sejam intrinsecamente abstracções, o mundo está saturado de pistas que as definem, pelo que não podemos evitar viver com contornos bastante claros delas.
São estes os ingredientes para um dilema, e para uma espécie de jaula, se esse dilema ocupa muito da vida.
Ora os dilemas, primeiro que a qualquer outra coisa, obrigam a válvulas. A fugas, tomadas com grande variabilidade de peso, de responsabilidade. E, se não devem logo a isso, devem pelo menos ao contornar. Mesmo quando os próprios elementos do dilema evoluem paralelamente ao ser.
Acredito que, numa grande medida, as palavras que exercito escrever são ensaios de contornos para essas abstracções, também porque as palavras são abstracções elas mesmas. Só há guerra se ambos os lados tiverem as mesmas armas relativas.
Mas as palavras levantam depois questões inusitadas, que depois obrigam a colaterais incursões teóricas. E então entra-se num mundo de ricochetes, de pirâmides que se erguem, e depois tombam. Ao mesmo tempo, a construção da própria identidade (para não falar de tudo o que suscita e fundamenta as nossas acções) começa a querer sorver desses investimentos, e o que era exercício vai-se impondo como hábito, e depois como indispensável visão.
O dilema alimenta o desejo pela sua resolução, e os métodos de resolução aumentam o âmbito do dilema.
Tudo isto por culpa dos Sumérios que passaram de uma escrita parcial para uma completa?

O espraiar da arte

Se a arte evoluiu pelos aproveitamentos das obras, não é um milagre que ela ainda se possa elevar?
Ou será ela infinita por derivar meramente da combinação simbológica, do mesmo modo que são infinitos os textos, mas tendo a particularidade de se mostrar sempre acima de um certo patamar de espanto estético, do mesmo modo que as definitivas harmonizações musicais definitivamente o provocam?

As obras da maturidade

Claramente eu tenho um problema, um sentimento ambíguo para com a adultícia, ou a velhice.
Por um lado, vejo o arraso daquilo, claramente muito para lá do que um plano de responsabilidades sociais e familiares naturalmente possa causar (a não ser que, mesmo após debruçar-me e observar tanto sobre isto, continue a subestimar este plano). Vejo o desnorteamento, a desesperança, o cansaço inexpugnável e infinito, o ridículo.
Por outro, poucas coisas me excitam tanto como as obras da maturidade. Não é o mesmo que “obras-primas”. Obras da maturidade, para mim, são aquelas onde eu vejo, claramente, em marcas tão subtis (será que as invento?), a primazia de um domínio natural sobre o que se está a tratar, com uma postura completamente humilde, que então se reflete numa obra limpa. São obras onde, com a seriedade de nelas se fazer, primeiro que tudo, o que é preciso fazer, depois não se deixa de fazer o que se quer fazer. São composições que realizam esse balanço como se não fosse mais um balanço, mas um simples estilo. E como me comove e conforta que quem é tão melhor do que eu continue a começar por resolver as obrigações, porque sinto parentesco nesse modo de andar pelo Mundo, e de receber os dias.
Na minha visão, é algo como isto que une, e assim me faz adorar, por exemplo, as crónicas do Pedro Mexia (tirando-se-lhe a desesperança, que me parece ainda destilada de um tom adolescente), as do Vasco Pulido Valente (tirando-se-lhe a arrogância, ou a porção dela a que ele não tem direito), os cozinhados das minhas avós (tirando-se-lhe o pragmatismo quase cego), as músicas dos álbuns mais recentes do Mark Knopfler, a obra do Leonard Cohen (surpreendentemente desde tão cedo), entrevistas relativamente lacónicas de intelectuais consagrados (tirando-se-lhe as tentações para reentrarem em jogos políticos).
Por outro lado ainda, é mesmo aí que eu quero estar. E embora saiba que esses não são lugares onde o presente viva, não consigo interiorizar o peso dessa consequência.
Porque depois há a questão do prazer nesses lugares, que é uma questão que, admito, não sou capaz de compreender. Tem para mim tanto de sublime e evidente como de insondável.

Fazermo-nos na obra

A solução é mesmo fazermo-nos na obra. Principalmente, porque já somos essencialmente feitos, e já fomos essencialmente vistos. Nem faz sentido continuarmos a ficar surpreendidos com as nossas reincidências, mesmo sabendo que ainda não lhes conhecemos as causas profundas. Portanto, só podemos dar a mais o suor que há-de fundamentar as nossas provas. É curioso como, por mais voltas que dê no entendimento do nosso papel no mundo, acabo sempre por chegar a um fundamento sacrificial dele.
Só o trabalho permite atravessar a fronteira para a criação. Só ele nos coloca no lugar propício onde se cruzam as linhas que vão fazer a nossa obra, nas quais então aplicamos os métodos de costura que são as nossas técnicas para resolver as coisas. Porque quando a obra suscita a nossa participação consciente, nós damos com humildade precisamente o que de normal somos. Até porque não temos, de facto, muito mais.
A obra é sempre a grande prova, porque a fizemos atravessando com ela toda a substância da realidade. Nesse sentido, ela é absolutamente sincera. Porque nem o autor (quanto mais o espectador!) pode reconhecer tudo quanto contribuiu para a obra, nem que seja pelo facto de sabermos, à partida, o quanto a realidade tem de agentes impenetráveis. Por isso é que perante o espanto artístico nós, essencialmente, batemos palmas. Se a obra nasce, ela aí está, e isso é o que sabemos de mais certo: que ela aqui chegou, assim, feita.
E ainda que haja muito potencial criativo na deslocalização (geográfica ou social) – como se isso fosse um expoente da teoria da miscigenação – vejo que o principal continua a vir do suor. O que não significa, de todo, que se abdique da calma e da inteligência para fazer obra: apenas que isso são ingredientes para outras fases do processo.

Vitórias

Fazendo as contas que se fazem à vida, já ganhei muito mais vezes quando fui porque finalmente tinha pouco a perder do que quando fui minimamente para ganhar.
Como pode isto ser?

Um resumo impressionista

Uma insinuação vaidosa para o adultério, e um coração que já não me lembrava que batesse.
Harvest (do Neil) na bagageira de um carro.
Uma nortenha estonteantemente sarcástica, e uma breve paixão que tive apenas porque a teria tido antes.
A valsa comunitária do desejo.
O reconciliamento com os associativos, com a Coimbrã boémia, com os hippies. Porque as pessoas sobrepõem-se a imenso.
Uma amizade dourada com mais uma folha, sobre um centro inquebrável, e ainda por cima agregadora de vontades.
Um longo professor plenamente ruralizado, em casa numa aldeia atipicamente dinâmica. Ainda com os mesmos olhos penetrantes.
Um outro professor, com generosidade de pai.
Um pontapé mental auto-infligido, e depois um brilhante planalto alcoólico, invencível.
Um Tiago-Bettencourt-wannabee.
Uma pose que não é mesmo pose, um cabelo diversamente amado.
A piedade por um impostor, e a esperança paternal num falhado.
A procissão das finalmente confundidas primeiras-impressões. E para melhor.

Deste gentil enrolar das ondas

Diria, sim, que a amei. Que o que houve foi mais do que um primeiro amor, até porque desde quase sempre vivi já velho demais para apanhá-lo, mas que não chegou a ser amor plenamente professado, porque era demasiado novo para saber fazê-lo.
O seu resto irredutível de supernova há-de cristalizar-se numa pequena e querida tristeza. Enquanto isso se desenvolve, encaro agora a possibilidade de encontrar os olhos dela como uma maravilha no meio de maravilhas, que por aí me aguarda, feita da mesma substância maravilhosa que o mar, ou de uma rosa, por exemplo. Não admito negar o passado, portanto, porque não me atrevo a matar maravilhas. Posso pensar: e se nos tocássemos? Seria só ter adiante mais uma grande porta, das que me aparecem nos dias, ainda que uma gigantesca. Mas, mesmo assim, julgo que ambos somos já incapazes para arcar com o confuso prazer que haveria nesse abismo, porque ele é também ferida, e também amargura e desespero. Por isso sei que, nessa concretização, nem olhos diriam o que quer que fosse, porque já nada de inteligente poderá falar por nós, e estaríamos entregues aos sublimes magnetismos descobertos da primordialidade, ao que abaixo dos nossos cérebros nos houvesse de fazer mover, falando em língua inconsciente por tudo o que ambos vivemos. Sem dúvida que seria belo, e arrebatador, e estrondoso, o encontro.
Mas disto, penso eu, na sua possibilidade e minha vontade, estou já mais a falar de algo que é belo do que de algo que é meu. Porque no que é meu, falando no geral, eu tenho de considerar a justiça, as conveniências, a segurança, os outros queridos ou não, enquanto aqui só estou mesmo a considerar as esferas da fruição, do prazer, do que no meu ser é desejo. E, mesmo aí, há algo que o invalida, porque vejo também que nisto me detenho do mesmo modo como outro algo deixo passar, precisamente porque é do belo e já estou a ir para esse outro que lhe estará seguido.
Quanto à minha vida, olhando-a num todo, sinto anunciar-se em mim uma síntese (venho até, para mim, murmurando a sua chegada). Inadvertidamente ensaio dela os seus começos, e âmbitos: limitar-se-á a memórias? Implicará também com capacidades? Definido mesmo é só este sentimento de renascimento. Estarei a buscar algo que eu era antes? Já nem sabia que havia um antes (há dias houve quem mo tivesse lembrado). Mas parece-me isso apenas uma teoria exterior.
Tanta coisa que tem mudado. Estar agora bem posto no prazer da humildade, e a saber harmoniosamente exercitá-la com o meu aprender. Reconhecer que o tempo é uma medida do passamento, e começar a saber usá-lo (julgo que isto ela também entenderá). Saber o tanto que em cada um de nós é afinal, simplesmente, dos sangues: das correntes e contra-correntes familiares, dos rios sociais aos afluentes locais aos riachos domésticos. O sangue respira-se a cada pulso para a nossa mente como o mar esculpe a praia. Ficamos a ser quase tudo do passado, a nossa boca, os nossos olhos, os nossos ouvidos! E mesmo fora de nós mesmos, nenhum momento, e nenhum quadro, despertence ao que é de história. Também a nossa morte não é a isso alheia (mas não acredito em destinos), até porque a morte não é só na Morte, a morte é também na bagagem que não podemos levar toda a todo o momento, e nos vai fazendo escolher quase tudo, dos objectos às virtudes, mas que assim também nos provoca vida.
E tudo isto são teorias que me interessam e interpelam, mas que não tenho afinal de decidir se desenvolvo, só no caso de se cruzarem com a minha respiração. E a isso eu posso chamar de liberdade.
Apesar de tanto movimento, admito a um amigo que tive o amor mais alto em que concebo participar, e que mesmo assim o vi falhando. Sem dúvida que esse é o meu facto: uma parábola paradoxal no meu âmago, aparentemente paralisante. Ainda assim, e isso sim me surpreende, tanta coisa tem mudado.
E é ainda a força emergente da síntese. Quero deixar tudo para trás, deixar cada vez mais e mais rápido para trás, não para esquecer, mas para estar mais de novo na frente. Quero-me na frente, sei bem que é isso que quero, porque é onde está o tecto da minha obra.
Como sou mel, meus amores que virão! A minha boca já se uniu aos olhos, sou todo um, sincero e lento, e a pose nasceu-me enfim. Ao sabor da minha escolha, bamboleio e quebranto, enrijeço e amacio, e brinco, enquanto beijo. E se queres ser a criança eu levo-te à criança, se queres ser a mulher eu levo-te à mulher, se queres em pleno relvado da vida sentir momentaneamente o abissal apagamento de todo o redor eu trago-te aos pés o êxtase. Brincaremos, por todos os lugares, e ainda que não venha a saber deles os poemas – porque é tão difícil digladiarmo-nos com o que é divino –  saberei deles um riso e uma satisfação. Venham os outros, venham os filhos, meus amores, que a mesa enfim se fez e está posta farta.
E sei que nada está mal se eu o souber ter lado-a-lado com o que evidentemente existe, ou se to mostrar, e a mim também, em fila, para ele ser visto num todo com as outras coisas. Nada estará mal desde que eu saiba o caminho a pé desde o centro até essas coisas que costumo encontrar bem fora dele.
E não me importo de misturar tudo isto, num texto assim sôfrego e cambaleante, porque, na verdade, tudo isto agora se disse e agora já passou. Mas também quero saber compor o texto, ter a inteligência ao lado da inspiração, ser assim bígamo, enquanto tranquilo de tudo fumo na cama. Sobretudo, decidi que não prescindo de nada até ao limite do meu sangue.

As paredes

Membranas flutuantes, enquistamento, pele. Barreiras, barreiras, barreiras, que tudo está hostil. No interior, finalmente, um certo silêncio. E um escuro, quente e fecundo. Vão crescendo órgãos bem delimitados.
Homem nas cavernas, protegendo-se, entre paredes, do mundo animal, que ele estranhamente vê como estranho.
Muros separando espécies de plantações, resguardando-as também do vento que, ignorantemente, tudo arredonda. Cercas para o gado, mundo animal expropriado.
Paredes fazendo casas – fazendo famílias – e muralhas fazendo culturas, e fronteiras. Um pouco mais tarde, a pouco e pouco, fazendo classes.
Templos, padarias, cavalariças, armazéns, alquimias, masmorras, cada ocupação nas suas quatro paredes.
Divisões dentro das casas, o Homem reconhecendo e separando as suas necessidades orgânicas, remetendo-as à sua condição de inultrapassáveis. Criando, ainda, a intimidade no seio da plena sociabilidade. Sólidas separações permitindo teimosias, e convicções. Paredes a que nos confessamos.
Génios, santos.
Armários, gavetas, cadernos, tudo processos.
Caixas para as tão delicadas máquinas, computadores com incontáveis compartimentos, frios e distantes do exterior, cabos ligando tudo diligentemente. Um mundo à parte, enclausurado na sua diferença digital.

No fundo, é do modo com que tantas experiências científicas se fazem: coloca-se as coisas, ou as hipóteses, em caixinhas, ou entre paredes.
Pois quanto do que hoje somos, e do que é o nosso Mundo, o devemos às paredes?

No ateliê

“Então, dizes tu que queres criar beleza, não é assim?” – respondeu-lhe, sentado, o mestre pintor.
O cigarro suspirava-lhe da mão pendente. Por entre o fumo, notava-se o vulto de uma cabeça cansada.
O rapaz olhava-o fixamente, vendo como ele se levantava para deambular um pouco pelo ateliê.
“Se queres especificamente criar beleza, o melhor que tens a fazer é tornar-te pai. É mais seguro.”
“Como assim?”
“Arranjas uma mulher bonita. Não deve ser difícil para ti, até pareces ter charme para isso. Casas. Tens um filho. Ou então uma filha. Quero dizer, faz filhos até teres uma filha. Cria-a com amor, do resto dá-lhe o normal. Sobretudo, tenta não estragar nada. Quando ela tiver aí 4, 5 anos, mete-a na dança. Uma dança qualquer. Deixa-a experimentar, vai incentivando-a. Ela sorri logo nas primeiras aulas? Óptimo, deixa-a continuar.
Passam 10, 15 anos, e aí tens, uma lindíssima jovem mulher. Quase sempre. Equilibrada, formosa, viva. Beleza pura. Que mais queres?”
Estava a processar o exemplo, não estava muito à espera de uma resposta assim.
O velho olhou para ele como se o examinasse. Pensou: “poupa-me o apontamento do estereótipo…”
“Mas então, porque é que o mestre continua aqui?”
(boa pergunta, apesar de tudo)
A cabeça cansada esboçava um pequeno sorriso longínquo.
“Pois, meu rapaz, é que nós não tratamos só da beleza…”.

A evolução tecnológica e a evolução da treta

Ultimamente, e muitas vezes a reboque de notícias de avanços na área da inteligência artificial, tem-se discutido o papel que essa tecnologia, uma vez desenvolvida ao nível que mediaticamente promete, terá ao nível do emprego e, consequentemente, nas sociedades.
Ainda que não tenha procurado assim tão profundamente por respostas, noto que elas não têm surgido com grande desenvolvimento, o que me parece inquietante, ainda que conceda que esta seja uma questão altamente complexa.
Sobre isto fala-se de várias coisas. Fala-se do exemplo prévio que foi a Revolução Industrial. Realça-se que, não só no plano dos indicadores económicos e sociais, mas também no das mentalidades, esse foi um processo que se acompanhou de longos anos de busca por um “equilíbrio”, ou uma “normalização”, sociais.  Fala-se da paralela capacitação dos trabalhadores, necessária para que possam ter estado na crista da onda da evolução tecnológica, e não submergidos por ela. Fala-se, para a actualidade, de mitigações destes eventuais efeitos sociais, como seja a instituição de um rendimento mínimo individual (pago pelo Estado? pago pela taxação directa das empresas detentoras dessa inteligência artificial que, indirectamente, destroem empregos?), e antecipam-se as consequências que tais medidas terão ao nível da estrutura económica das nossas sociedades, da sua ideia de Justiça, etc.
Ao contrário do que muitos pensam, o problema do impacto da evolução tecnológica no emprego não se limita às revoluções tecnológicas (como será, provavelmente, a da inteligência artificial). O que acontece é que, na dinâmica entre evolução tecnológica e adequação da capacitação humana, há épocas de ajuste e épocas de desajuste.
Porque não são simplesmente “máquinas” aquilo que “destrói” empregos. Tudo o que seja inovação, até objectos, até novos modos de gerir recursos humanos, contribui para destruir empregos, e isso é até uma medida de eficiência dessas inovações. No modo como o surgimento destas inovações podem afectar o emprego impera ainda uma outra dinâmica, entre o que são as necessidades humanas e a disponibilidade para a sua satisfação ser assegurada mais directamente por mão-de-obra.
Tomemos o exemplo de várias tecnologias que podem implicar com um bem essencial que é a água: uma garrafa de água, um sistema automatizado de distribuição de água, a fluoretação das águas públicas.
Uma garrafa de água é um objecto, produto da evolução tecnológica, que, ao permitir-me armazenar e transportar água, dilui, pelo menos, a intensidade de uma unidade de mão-de-obra: neste caso, do “trabalhador” que eu mesmo sou. Dependendo do balanço entre a premência que terá essa necessidade específica e os ganhos de tempo que esse objecto me concede, aí temos ganhos, ou perdas, de produtividade, assim deslocada para outras áreas.
Antigamente, e isso ainda o vemos em tantas aldeias africanas, todos tinham, em nome próprio ou familiar, que deslocar-se por longas distâncias para obter, de furos subterrâneos, água para suprir as necessidades diárias. A partir do momento em que foram desenvolvidos sistema automatizados de distribuição de água, toda esta mão-de-obra se diluiu, deslocando-se para outras áreas, para suprir outras necessidades, que, novamente, podem ser mais simples ou mais sofisticadas.
Se pensarmos que a adição, já implementada em vários países desde meados do século XX, de flúor na água distribuída pela rede pública, contribui para a redução das cáries dentárias na população, então aí temos uma nova diluição de mão-de-obra, desta vez nos profissionais de saúde. De novo, o mesmo raciocínio se aplica.
Até que produtos ou serviços sejam suplantados ou deixem de ser eficientes em si mesmos, a produtividade concentra-se e refina-se em estruturas cada vez mais especializadas. Por exemplo, neste momento, o único modo de resolvermos a necessidade de estarmos calçados é o sapato. Como essa tem sido a única resposta a essa necessidade, fomos especializando o sapateiro (mesmo se com máquinas em torno dele), porque o recurso humano, neste caso, ainda não saiu do centro da solução desta necessidade.
Esta necessidade de especialização acaba por cruzar fronteiras. Se o “melhor” “sapateiro” estiver na China (isto é, se tudo o que contribui para produzir um sapato estiver mais eficientemente na China) então, tendencialmente, vamos vendo os sapatos ser produzidos na China. Cruza fronteiras e alimenta-se a si mesma, gerando e sendo gerada pelo comércio que, por sua vez, ao promover trocas inter-culturais, gera ciclos auto-alimentados de sofisticação de necessidades, e de produção que as satisfaça. Antes de se encontrarem na língua, os povos encontram-se no comércio.
Ainda que, historicamente, este desenvolvimento tecnológico se esteja a revelar altamente positivo, pelo menos para o Ocidente, a verdade é que ele não é intrinsecamente positivo, uma vez que tem importantes factores de diluição do seu valor. Um deles prende-se com a natureza ambígua dos próprios avanços tecnológicos: ao mesmo tempo que trazem benefícios, suprindo certas necessidades, trazem certos malefícios, premeditados ou não, ou nem propriamente malefícios, mas antes compensações que se têm de tomar obrigatoriamente. Os produtos açucarados e a diabetes ou, para continuar com o exemplo da água, o facto da produção de garrafas de água de plástico acabar por poluir o ambiente, são dois desses inúmeros exemplos.
O outro factor de diluição prende-se com a natureza fútil de certas necessidades, especialmente se olhadas na perspectiva de um balanço entre esforço de produção e ganho de produtividade.
Por exemplo, acabo de comer um quadrado de chocolate Milka com Oreo. Quanto esforço terá baseado a produção deste chocolate? Primeiro, há a invenção de dois produtos completamente diferentes. O design que cada um tem. A marca que a cada um suporta. A cadeia de distribuição que o faz chegar até mim. Claro que sobre tudo isto abate que este esforço está muito distribuído ao longo do tempo, e por muitas pessoas, e por pessoas que se especializaram no tipo de contributo que para isto deram, e por um sistema de produção estável e rotinado, e por este até ser um produto composto, resultado da mera junção entre dois que já existiam, mas será que tudo isso se compensa quando eu sei que demorei cinco segundos a comer o quadrado de chocolate, que basicamente todo ele é açúcar da mesma forma que uma maçã é açúcar, e que, apesar do primeiro ser bem diferente desta porque estimula com tanta mais sofisticação as minhas papilas gustativas, isso nem sequer belisca a possibilidade de eu acordar deprimido amanhã, por uma outra razão qualquer?
A Economia é, precisamente, a estrutura destes balanços, e de muitos mais que eu não sei elencar, e de muitos mais dos que toda essa Ciência sabe, actualmente, elencar, ou das inalcançáveis relações entre eles. Para isto existem os indicadores económicos e suas medidas: “produtividade”, “emprego”, “PIB”, “dívida”, “juros”, “lucro”, etc. Os números não cobrem – nem de perto – toda esta estrutura, mas podem-nos indicar se o conjunto destas dinâmicas resulta num estado “bom” das coisas, ou “mau”.
E nem é certo, de todo, que mesmo aquele quadradinho de chocolate, sendo fútil, seja uma absoluta inutilidade. Que outra tecnologia terá sido inventada através da sua génese? Que talentos terá favorecido, em detrimento de perdidos, ou que distribuição terá ele resultado em tudo isso, ao longo de toda a cadeia da sua concepção? Quem diz este quadradinho de chocolate diz um vaivém espacial, ou diz uma guerra.
Tudo está demasiado ligado para apenas poder ser pensado em termos extremos, isto é, para ser pensado apenas naquilo que dá início e naquilo que é fim.
No entanto, voltando um pouco atrás na análise, a verdade é que, supondo tanto desenvolvimento tecnológico no Ocidente, e até tão acelerado, seria de esperar que estivéssemos com problemas muito mais graves a nível de emprego, ou a nível social (pelas mudanças que essa evolução introduz) ou, pelo menos, que não pudéssemos manter a vida tão sofisticada como a que temos hoje (por exemplo, poder chegar a casa, todos os dias, e ver uma televisão que tem 180 canais diferentes, comendo um arroz de pato que encomendámos no supermercado mais próximo, e achar que isso é normal, é bastante surreal).
Em parte, isso não acontece porque todo o esforço que suporta isto está distribuído globalmente. Sem a globalização, dificilmente tudo isto seria possível.
No entanto, noutra parte, creio que têm vindo a ocorrer, de facto, modificações sociais importantes, cujas consequências estejam talvez a passar mais despercebidas. Ou cujas causas não se têm apontado como sendo derivadas desta dinâmica.
Uma delas é o facto de, no Ocidente, ser notório que nos sentimos cada vez mais sós. Objectivamente, é também notório que, num dia, passamos muito menos tempo com alguém, presencialmente, do que antes. Talvez isto aconteça por causa desta especialização a que nos temos que votar, para sustentar esta sociedade que avança impulsionada por aquela dinâmica entre evolução tecnológica e sofisticação das necessidades. Talvez porque a especialização é – e isto, concedo, é mais rebuscado -, em grande medida, um processo impessoal: envolve uma certa solidão, para absorvemos devidamente as competências que constituem essa especialização. Podia não ser impessoal, até porque podemos aprender muito com os outros, no entanto, é sempre mais seguro (isto é, menos susceptível de desvio) que o façamos em solidão, do que com outros.
E há ainda uma outra consequência de uma evolução tecnológica que ocorre demasiado adiantada de uma nova capacitação laboral compensadora. Se pensarmos bem, o caminho mais natural para o escoamento daqueles que ficam sem emprego ou, pior, sem perspectiva de emprego, porque algo da evolução tecnológica lho tirou, é ir “roubar”.
Este “roubar” não quer dizer, de todo, furtar. É mais o roubar do proverbial “roubar para comer”. E tenho visto imenso disto: jovens que começam com uma ideia artística da sua carreira, e depois vemos a vender carros para os programas da tarde da televisão; personal trainers que acabam por inventar mais uma dieta, ou mais uma filosofia de vida; jornalistas que quase passam a inventar notícias; eventuais engenheiros que passam a desenvolver app’s, ou jogos, quase inúteis. E tantos, tantos outros exemplos.
É muito difícil distinguir se tudo isto vem da sofisticação das necessidades que atrás mencionei, ou antes deste efeito que estou a tentar explicar ao nível do emprego (ou de outra coisa qualquer, até porque não sou, de longe, especialista em qualquer um destes assuntos). E eu também não estou a julgar intrinsecamente essas novas ocupações (até porque, se as estou a querer explicar como consequência de um sistema, não faz muito sentido julgar os actores). Aliás, a própria actividade que é eu estar investir tanto neste texto, ou neste blog, pode ser enquadrada nisso.
Mas a questão não é essa. Se cada vez mais pessoas se vêem obrigadas, ou demasiado sugestionadas, a seguir essa via de emprego, que a nível clássico classificamos de artístico ou de entretenimento, então, tendencialmente, tudo o que consideramos como artístico ou de entretenimento vai ter cada vez mais “treta”. Ou seja, vamos viver cada vez mais rodeados de “treta”, até no campo daquilo que, tantas vezes, esperamos que nos “salve” (a arte). Se repararem, outra definição para treta é o, também proverbial, “meio mundo a roubar outro”.
Já venho desenvolvendo esta a ideia há algum tempo, e por isso foi até interessante ter lido um texto, publicado hoje por um economista mundialmente prestigiado, que basicamente diz que, face à nova revolução tecnológica que se anuncia, grande parte dos trabalhadores vai deslocar-se para áreas “marketinguizadas” (até porque os robots não conseguem exercer marketing), o que me parece um argumento válido.
E então, o que é o marketing se não a sofisticação da “treta”? Todos o sabemos bem.

Os antiguismos

1 – Forma explicitada:

Numa perspetiva mecanicista, o tempo é uma cronologia, e o passado, caso fosse registável com absoluta fidelidade, uma genealogia das origens causais das coisas.

Numa perspectiva humana – e dizemos “humana” simplesmente porque não conhecemos outro agente que a possa assumir -, o passado, ainda que sendo também aquilo (porque também nenhum animal foi alguma vez visto a usar relógio), pode ser muito mais.
Noutros textos já falei da memória, mas não é para aí que agora quero ir. A memória, como conceito confinado a um indivíduo ou a um grupo identificável, é uma medida do marcante no passado respetivo dessas entidades, cuja morfologia deriva de uma interpretação do ser que a detém.  Agora quero falar um pouco de vários modos de referenciação do passado, o que não quer dizer que nada tenham que ver com a memória.
Há várias palavras que referenciam para o passado. Podemos escolher olhar para quatro delas: “ontem”, “anterior”, “antigo” e “ancestral”. Perceber a diferença entre elas pode também ajudar a entender a composição da perspectiva humana do passado.
“Anterior”, aqui, é o caso-controlo. Um termo limpo, seco. É um termo mecanicista. Tão mecanicista que se aplica não só no tempo, mas também no espaço. Não é um termo muito “humano”.
“Ontem” é mais humano. Remete para uma perspetiva quotidiana (e também não consta que haja animais com quotidiano). No entanto, nota-se-lhe ainda uma certa propriedade mecanicista, algo devedora daquele “anterior”. Os “ontens” são sempre dos dias, e são sempre, portanto, quotidianos, porém não carregam um humanismo particular no seu significado, porque são invariáveis, no sentido de que existem fundamentalmente em relação a um qualquer “hoje”. São demasiado indiferentes para terem algum do “humanismo” que por aqui procuro.
“Antigo” é já outro negócio. Dá para sentir que o é, antes de mais explicações. “Ancestral” também. E parecem habitantes da mesma casa. Ainda que, penso eu, sejam conceitos bastante distintos.
“Antigo” e “ancestral” referem o passado, mas numa perspectiva histórica. Logo aí, são mais humanos, uma vez que a História é, precisamente, uma fenomenologia humanista. Mas a que passado referem eles exatamente? Perseguir uma resposta para isso pode indicar explicações não só para o que para um humano significa o passado, como ainda para o que significa ser “humano”.
“Antigo” e “ancestral” – percebo-o agora – não são fáceis de definir. “Antigo”, diria, é tudo aquilo (objetos, ideias, pessoas) que não é moderno. Mas essa não é uma definição satisfatória – parece quase unicamente antonímica. “Ancestral” parece remeter para um certo tipo de origem das coisas, algo que é, não só de um tempo tão recuado, mas também de um certo conjunto de causas. Ainda que um termo possa ser bastante diferente do outro, vamos considerar, para efeitos de análise, que são uma unidade. Chamemos-lhes “antiguismos”.
Talvez comparando estes termos históricos com os mais puramente mecanicistas se perceba melhor o que os primeiros significam.
Se tudo o que é “anterior”, e, num certo sentido, também tudo o que é de “ontem”, deixa sempre de existir no presente, com os antiguismos isso não acontece necessariamente. O que é estranho, porque sugere que estes não obedecem à inexorabilidade do tempo, que é uma das leis da sua estrutura causal. Assim, o que é antiguista, se não existe já materialmente, pode ser criado ou, melhor dizendo, recriado. Mais do que isso, pode até nunca ter deixado de existir, naturalmente (a atividade de cozinhar num pote de ferro, um fóssil vivo, uma ideia mística, por exemplo).
Ou seja, o “antigo” ou “ancestral”, referindo-se ao tempo, mais concretamente ao tempo passado, não seguem semanticamente os esquemas de causalidade do tempo. Porém, ao mesmo tempo que infringem profundamente essa causalidade, parecem relacionar-se fundamentalmente com ele (a intuição transmite-nos isso, daí remetermos os antiguismos logo para coisas do tempo).
Por outro lado ainda, parece haver um aspeto que bruscamente reverte essa infração, que já era brusca ela mesma: “ancestral” é sempre “anterior” a “antigo”.
Mas o que definitivamente desfaz a relação destes termos com o tempo é que “antigo” tanto pode ser aquilo que na minha vida é antigo (uma casa onde antigamente passava férias, uma antiga ideia de profissão, um amigo antigo que ainda conservo) como o que na História é antigo (exemplos que atrás dei). E quanto ao que é “ancestral” podemos aplicar, mais ou menos, o mesmo raciocínio. Ou seja, tanto pode ser “antigo”, ou “ancestral”, aquilo que tem ou foi há 17 anos, como aquilo que foi há 300, ou 2000. O tempo, agora, parece aqui um parente estranho.
Portanto, se o facto de algo ser “antigo” ou “ancestral” pouco tem que ver com o tempo, tem então que ver com o quê? Talvez isto agora se torne interessante.
Há ainda um aspeto ao qual não dei muita atenção: os antiguismos, logo pelo olhar da intuição, já apresentam aspectos não estritamente da temporalidade.  Estou a referir-me àquela aura que eles carregam, ao respeito que suscitam, à alteridade que mostram ter em relação ao que é da actualidade (ou da modernidade). Temos a “Antiguidade”, por exemplo, com a sua cultura e simbologia própria. Temos uma mistura com outros conceitos, como “tradição” ou “nostalgia”. Nada disto é mecanicista, antes bastante “humano”.
Pegando no meu exemplo, e naquilo que, da minha vida considero antigo: amigos antigos, alguns que mantenho, e amores antigos. Penso nesses casos, e parece que entro numa outra realidade, ou que sinto essa tal alteridade. E aqui, pelo menos aqui, o argumento dilata-se mais um pouco: para além destes antiguismos serem alheios à causalidade do tempo, eles são até contra ela, porque eu penso-os, na sua alteridade, como se eles não pertencessem ao meu passado, porque deles não vejo terem partido as causalidades simples que deveriam estar bem refletidas no meu presente.
Ou seja, se tenho um amigo antigo a meu lado, o presente que eu nesse momento passo a viver parece outro, como que mais superficial. Se penso num amor antigo, vejo-me colocado numa pequena realidade onde eu era outro, em relação ao presente. E tudo isto é estranho, se entendermos o tempo numa perspectiva mecanicista, porque essa amizade antiga tem apenas quase duas décadas (ainda que isso seja historicamente pouco, é a quase totalidade da minha vida) e, mais agudamente ainda, aquele amor teve muito menos tempo, e foi ainda mais recente. Mas nada disso impede que eu sinta essas coisas como “antigas”. Nada disso impede que eu, pensando nelas, fique momentaneamente incapacitado de perceber de que modo quem eu era nessas alturas foi causalmente originando quem eu sou no presente, isto quando, logicamente (até mais no caso daquele amor), tão pouco tempo passado deveria mostrar-me que é impossível que eu tenha sido ou seja agora outro.
O que eu acho é que, primeiro que tudo, os antiguismos não referenciam para o tempo, mas para o ser. E o ser é que, depois, tem uma relação íntima com o tempo (de certa forma, como tudo acaba por a ter). O ser, aqui, tanto pode ser a minha pessoa, como o ser cultural da nossa espécie. E é aqui que, julgo eu, está precisamente o que é humano, ou o que estes termos têm de humanista: eles consubstanciam uma possibilidade transfigurativa da ontologia. Isto é, mostram-nos que algo, sendo aquilo que é, pode mudar naquilo que é. E isso pode parecer paradoxal mas, tendo em conta que, como já mostrei, também isto é alheio à própria causalidade, então que significado pode ter que seja paradoxal?
2 – Forma sintética
Em termos ontológicos, a ancestralidade não é diferente do presente, mas como existe uma clivagem analítica entre estes, a primeira, e a segunda, adquirem substância própria, dentro do entendimento humanos das coisas.