A dor de não nos sabermos mostrar ao mundo, nem ao mínimo ar para lá da roupa. De fazer tanta força, passar tanto esforço e frustração, para mostrar o que se é; de fazer da longa vida um cansaço disso. Ao fundo, sempre a preocupação intransigente (vinda afinal de onde?) de não cair na hipocrisia de se ser os sinais que se mostram, em vez de se ser através deles. De não se ser a obra que se criou, o corpo que se trabalhou, os amigos que se conquistou, o curso que se tirou, a bondade que se emprestou, o feito que se atingiu, a humildade que nunca falhou, o caso em que se participou. De não usar a vaidade, em qualquer uma das suas formas – todas, afinal, traições ao próprio. E ver – nova dor – os outros amar os sinais que os outros vestiram. Ver o amor reduzido a isso. Ver os que nós amamos amar outros assim. Duvidar já, também, do que se ama. Perder-se, esgotar-se.
Pior ainda: entrar em desvio. Estar condenado a construir inadvertidamente um outro, um “público-paralelo” nosso, um ser com uma coerência ameaçadora, que se acumula daquilo que sempre erradamente sabemos que se foi mostrando. Mas que funciona para os outros. Aliás, largamente como opinião dos outros em relação a nós. Um outro contra quem temos de lutar, para que o seu peso não nos desintegre, um traidor acorrentado a nós, que nem sabemos de onde vem, mas que assumimos que vem de nós. Sentir-se traído no seu âmago, posto a combater em campo aberto, a recuar no escuro, sem fortalezas que restem desarruinadas, sem duas pedras que façam uma muralha, ou só um descanso. Estar preso nisto, ser tão pequeno face a isto. Ser, depois, o que acaba por se entender que não pode ser aqui. Não aqui. Pensamos: noutro lugar.
Ao mesmo tempo, ver, da selva desses sinais, emergir da paisagem o nosso desejado, espelho feliz do que somos. Descobrirmo-nos, mesmo por entre a perdição de um mundo errado. Imaginar que são milagres, que isso é, precisamente, Deus. Coisas que são como se ali estivessem postas antes, feitas para nos levar lá, por o Deus que só poderia querer que não nos traíssemos, mas que afinal nos parece ali querer. Ir, então, para perder o que de divino nos deram. Depois, ponto crucial, passar a não se preocupar muito. Morrer um bocadinho, onde formos julgando, a cada tempo, que é mais preciso. Fazer essa escolha sem saber que vida nos resta, ou de onde se poderá ir buscá-la nas alturas de necessidade. Tomá-la de fora, talvez, mas, sobretudo, passar a esperar por ela. Ou vinda do que seria já nosso e a que sempre fomos totalmente alheios, ou nos alheámos. Perceber enfim que cada homem, que se deu ao senhor do tempo, há-de ser gerido, na sua graça, por ele.
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