Acontece até que, algumas vezes na nossa vida, vivemos algum tempo atrasados de nós próprios, ou talvez sempre, mas em graus variáveis: vivemos de um modo que havíamos convencionado que era suposto assim ser, um modo que até inconscientemente o reconhecíamos como parte constituinte da nossa identidade, em vez de vivermos para um novo modo de ser que, vindo também de nós, nos vem puxando para ele. Confundimos o que éramos com o que tínhamos de ser, ou com o que para nós achamos que temos que ser, e chegamos ainda a confundir tudo isso com o que estamos surgindo a ser.
A verdade é que distinguir tudo isto é realmente difícil: afinal, tudo acaba por vir de nós (tem essa substância e essa marca), e na vertigem dos dias somos quase totalmente ocupados por estruturas de pensamentos na superfície, e só com muita concentração podemos trabalhar para distinguir essas dimensões. Mesmo assim, diria que, no geral, a dimensão de “aquilo que estamos surgindo a ser” tende a ser mais saliente, quer em substância, porque surge como contentamentos que vão ocorrendo nos dias, os quais até julgamos aparentemente demasiado separados para derivarem de uma causa comum, quer em consequência, porque, ao contrastar com as restantes dimensões, é contraditória e produz em nós tristeza. Quanto à causa do atraso, para além da própria confusão já apontada, temos por vezes o medo, misturado com uma persistência resiliente, que nos leva a achar que aquilo que fomos é só o que temos definitivamente de corrigir, para então sermos.
Coisa curiosa é também o tempo que, por vezes, estes estados de atraso duram, e em alto grau, o que indica pelo menos uma relevante ausência de desconforto com isso. É que, na verdade, quaisquer dimensões dessas têm substância de identidade, que é de uma tal capacidade de autonomia para a vivência que nos permite viver habitados em várias delas, alternadamente. Nisso pensamos que estamos a trocar de Mundo, ligamos até a isso um aproveitamento vívido da diversidade estética dele, quando afinal não fazemos mais do que trocar dessa dimensão em nós.
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