Tinha já escrito que não há nenhum lugar na vida, ou posição onde possamos estar, que nos traga, automatica e consistentemente, a felicidade. Porém, apesar de me parecer esse um argumento categórico, não o vejo como um argumento definitivo, porque há uma análise subalterna para fazer acerca dele: a que tem em consideração a irrelevância da felicidade.
A felicidade é uma ideia curiosa: tem problemas fundamentais – que ninguém ignora – mas que também não parecem dissolver a sua sacralização. São pelo menos dois desses problemas os seguintes: a sua contradição com a insatisfação cognitiva humana e a não-incorporação da ideia de futuro (uma contradição até perante a Física). Ou seja, o facto de, como humanos, querermos sempre “mais”, e o facto de a ideia de felicidade, e mesmo o seu cenário, pressupor uma estacionariedade, necessariamente irreal. Ora, quanto a isto o mais sensato será pensar que, se muito poucos se demovem convencidos da ideia de felicidade, então isso será porque, possivelmente, nela se verá outra coisa suficientemente desejável. Eu sou partidário desta ideia, sobretudo porque acho mais valioso interpretar democraticamente as realidades humanas. E acho que essa coisa é, nada mais, nada menos, do que a “liberdade”.
A liberdade é bem diferente da felicidade, ainda que ao mesmo tempo consiga com esta partilhar quase a mesma sacralização. Tradicionalmente, é mais ou menos óbvia a distinção entre estes dois conceitos, mas a questão é que não o é tanto assim nos dias de hoje (eu próprio me surpreendi por relembrar esta distinção). A verdade é que, possivelmente entre outros motivos, há um bom tempo que o trono do coração ideológico contemporâneo é ocupado pela ideia de felicidade. Vemos sinais disso em todo o lado, começando pelas campanhas publicitárias (campanhas seja do que for, que sempre se baseiam na felicidade, direta ou indiretamente), por exemplo. Por outro lado, muito poucas destas campanhas são hipócritas o suficiente para se basearem na ideia de liberdade. E, quando o fazem, maioritariamente se obrigam a estar no plano da crítica, o que por si só já muda o pólo da sacralidade desses objetos (de celebratório para crítico). Mas não é bem por aqui que quero levar esta discussão.
A liberdade é uma ideia que se enformou para tomar reações muito diferentes perante aqueles problemas que apontei à felicidade: a liberdade incorporou um futuro (e mais do que numa possibilidade, numa validação) e, quanto à insatisfação cognitiva, ela apela para a busca e para a realização (e não para a desilusão, como o faz a felicidade). É claro que a liberdade tem problemas – os limites físicos que tradicionalmente lhes são apontados, por exemplo – mas o importante aqui é que não se tratam de problemas fisicamente intransponíveis, aqueles com os quais fiz comparação com a felicidade, mas antes de problemas humanos (por exemplo, o problema de saber o que significa para cada um a sua concretização de liberdade).
Como sociedade, deixámo-nos porventura conquistar pela ideia de felicidade porque ela é o brilho da ideia de liberdade. Contudo, acerca disto, há uma relação que se impõe aqui trazer e me parece válida, que é a relação entre a liberdade e o sucesso.
Tem-se falado muito do sucesso relacionado com a felicidade, por vezes como mutualidade causal. Mas a muitos não ocorre que a relação do sucesso com a liberdade será uma asserção bem mais válida e profunda do que a outra: enquanto a felicidade se relaciona com aquele a um nível essencialmente emocional (a superação, a recompensa), a liberdade relaciona-se-lhe a um nível essencialmente cognitivo (e que ainda consegue ser, numa certa medida, emocional).
Pensemos em todos os modelos consistentes de sucesso, das áreas e percursos mais diferentes. O que têm em comum? O exercício de uma liberdade que se descobriu convergida com uma necessidade do mundo.
Essas pessoas praticam a sua atividade a partir de uma casa onde se sentem: recebem as informações como se nunca saíssem do centro do seu dia, desenham associações e consequências como quem se desloca em casa própria, trabalham com a simplicidade de não fazer sentido que estivessem a fazer outra coisa. E é claro que essas pessoas não deixam de arriscar, ou até parece que o fazem mais do que o normal, mas esse risco, ou o desconhecido desse espaço, são sempre formais, e nunca trágicos (pelo menos à partida), porque nesses caminhos elas veem já uma extensão dessa sua casa. E não é uma questão de o que fazem ser mais ou menos fácil, e portanto ser mais ou menos meritório, porque isso é também uma questão formal. Simplesmente sucede que a liberdade é um espaço de facilidade conquistada.
Num tempo em que finalmente as elites começam a gerar-se substancialmente por via meritocrática, ter esta noção das coisas, se ela é válida, é uma faca de dois gumes. Se por um lado a posição elitista se torna apetecível porque é uma consubstanciação da liberdade, por outro aqueles que ficam nas posições não elitistas (e a grande maioria tem de ficar) veem-se assim sonegados de a ter satisfatoriamente, como que presos a uma atividade que, mais do que não requerer, não tolera uma incorporação da liberdade.
E talvez por isso vemos hoje a nossa cultura útil, afinal a cultura das massas, subjugada à ideia de felicidade, não só porque podemos ser enganados mais facilmente com a felicidade do que com a liberdade, porque a primeira, confundindo-se com a alegria, pode suceder-nos sem ser conquistada, mas principalmente porque a felicidade permite a nossa manipulação, muito mais do que a liberdade porque é, pelo menos, radicalmente contraditória à manipulação, nem que seja só pela semântica.
Anúncios