Quem já viveu o amor, fica a saber bem o que ele envolve, e fica, sobretudo, a saber-lhe o peso. Por vezes, é tanto esse peso sentido, a fazer-nos prudentes na eminência de o deixarmos acontecer de novo em nós, que damos a volta nele, e passamos a fazê-lo acontecer não através do nosso empenho, mas através da nossa distração. Passamos a viver para ele como surpreendendo-nos por ele, a vê-lo acontecer-nos por portas deliciosamente insuspeitas, ou até impossíveis de abrir por outra coisa qualquer.
Por exemplo, como com aquele rapaz, que sorria de uma forma tão incrivelmente franca que não pude se não deixar-me mergulhar naquela amistosidade. Quando pensei no que tínhamos conversado, e da forma como tínhamos conversado, percebi muito rápido que nos tínhamos namoriscado, discursivamente falando.
Ou daquela vez que alguém, porque desceu de si tão brilhantemente numa conversa – talvez por ter dado nisso uma nota genial, talvez por ter aproveitado, na asa desse desabafo, a cansada descida do fim de tarde onde nos encontrávamos, não sei – instantaneamente me comoveu, e profundamente me fez sentir ter com ele comungado.
No fundo, termos ficado tão pequenos que passamos a deixar que o amor se dê apenas se logo nos virmos nele.
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