A seguir a qualquer forma de silêncio, não há nada mais aberto do que a pergunta. No entanto, apesar de sabermos bem que, mais concretamente do que no silêncio – ainda que não mais completamente – é na pergunta que mora a possibilidade da nossa liberdade, quando também perante ela nos vemos falhar aí sentimos duplamente a incapacidade para sermos livres.
Desde o momento em que em cada um se dá o contacto com a realidade que é a pergunta que há uma parte de nós que ainda se anda a debater acerca de como relacionar-se com ela. A resposta dada nunca é “a resposta”. Partimos sempre para a resposta com um peso de falha que já estamos a tentar compor. Partimos sempre para ela, portanto, sabendo que já deixámos cair aquela liberdade. Se centrarmos mentalmente a nossa vida na sucessão das perguntas que nos interpelam, desde as perguntas de cada um dos dias às perguntas tão grandes cuja formulação nos escapa, percebemo-nos um ser acossado, sôfrego e dorido.
Mas, como dizia, as perguntas, por muito abertas que sejam em substância, são mais fechadas do que os silêncios e, portanto, têm algum fechamento. O fechamento principal é a ignorância do perguntador. O problema é que esta ignorância não se apresenta comunicada, e isso vem juntar-se àquele problema da incapacidade para a resposta.
Então, sucede o seguinte: mesmo depois de abdicarmos da possibilidade da liberdade na pergunta, deixamo-nos com a possibilidade da comunicabilidade e da congruência com o outro, o perguntador neste caso. Só que, também aí, falhamos muito, falhamos imenso. Então, sentimos triplamente a incapacidade para sermos livres. E daqui, das duas uma: ou nos calamos, ou aceitamos um princípio de caos em tudo isto.
Para alguns, esse caos tem que ser aprendido, e demora muito essa aprendizagem, ou talvez aquilo que sobretudo demora seja aquele triplo luto. Felizmente que o caos é para nós, empiricamente, também uma inegável fonte de liberdade. É esse um dos grandes mistérios da existência individual humana, na minha opinião.
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