A arte são só casas, e casas que dizem coisas. Isto é, a arte são só casas que vêm da expressionabilidade: uma casa literal à beira de uma estrada, por exemplo, vista assim passageiramente, não é arte; se virmos nessa casa coisas da expressionabilidade de quem teve nela as mãos ou o pensamento, ou se encontrarmos alguns desses agentes que nos transmitam isso, aí essa casa passa a ter arte. E o mesmo se aplica a qualquer outro objecto.
Entrando nessas “coisas da expressionabilidade”, pode bem ser que toda a arte seja desaguada do princípio cognitivo da familiaridade: em plena dúvida, e num estado nosso já mais tendendo para a necessidade de um estado estável nosso também, vamos buscar o que conhecemos suficientemente melhor e que está o menor possível “abaixo” do que naquela dúvida estava em causa.
A arte, portanto, nunca é a vida. Nem se dão os casos em que uma delas transcende sobre a outra, como muitos acham que assim fica bem concluir. Na verdade, o fundamental dessa relação será até uma falhar sobre a outra. Depois, tantas vezes se faz arte num recuo calculado perante vida que se lhe reconhece estar para diante, ou mesmo nisto ao longo de uma linha premeditada nessa distância (nesse contexto, a técnica artística é a capacidade de estender e manter auto-coerente essa linha). Mas também é verdade que só é sublime a arte que perigosamente se arrisca tão perto da vida, mesmo que a obra não resulte daí inteira. Poderá aquela relação de falha, até como transposição dualista, advir da falha que primordialmente há entre nós – como espécie e como ser – e o Mundo.
Nesses modos de arte, como talvez para todos os demais, ao artista coloca-se sempre o problema da “captação”: quer daquilo que nos surge, quer daquilo que, numa atitude de reação a esse contactar, nós desejamos ainda vagamente ver acontecido.
A arte que nos agrada, que nos atrai, e que nos subjuga de adoração, é assim a “casa vizinha”, dessa outra grande casa (ou de parte dela): a dúvida da nossa vida.
Anúncios