– Já reparaste em como tudo o que comes está morto?
Dizia-me o meu amigo vegetariano. Não movi os olhos, que fixavam os dele. Como se não tivesse ouvido nada, levei o garfo à boca, sem mudar qualquer gesto. A comida tinha cores boas, e um cheiro bom, e um sabor bom, particulares dela.
– Já reparaste em como toda a arte à tua volta são emoções mortas? Aquele quadro à tua esquerda, aquela fotografia emoldurada ao fundo, a música que sai das colunas do refeitório, o livro que a rapariga ali sentada está a ler (mataram várias árvores para aquilo), o filme que estavas a ver no Mac quando há pouco nos encontrámos, ou esse poema que tens aí no individual do tabuleiro?
Entretanto, acabávamos de comer. Um pouco depois, finalmente enfrentando a realidade da tarde, decidimo-nos a ir então embora.
– Vamos para onde agora?
Eu não sabia, claro.

 

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