Há dias escrevi aqui que “eu sou, sempre fui, quase todo de palavras. E nunca fui de datas.” Entretanto, tenho-me apercebido do quanto isso é profundamente verdadeiro, e do quanto é peculiar.
Desdramatizando, é claro que eu também sou de datas. Como toda a gente, julgo eu, tenho também uma memória do tipo normal. Discuto com alguém alguma coisa do passado – comum, alheio, ou histórico – e também eu começo por entrar nos factos mais consensuais, depois nos contextos e nas imagens mais ou menos esparsas e indefinidas, depois nas lógicas dos “antes” e dos “depois”.
Mas essa é a memória que me é suscitada. Outra, bem diferente, é a memória íntima que eu, na liberdade exclusiva que tenho de maleá-la, escolho formar e evocar. E aqui sim, para mim, as palavras são fulcrais. Talvez também aconteça que, de tudo o que é realidade para tudo o que pode ser memória, eu tenda a vivenciar as coisas mais de um modo pessoal (ou íntimo) do que impessoal, pelo que, daí, talvez, se possa considerar que uma parte demasiado considerável da minha memória esteja ocupada por processos íntimos dela.
Mas o que tenho achado de mais curioso é que essa memorização pessoal, apesar dessa sua índole, está muito significativamente apoiada em dois instrumentos extrínsecos.
O primeiro deles é o conjunto de estantes, quase já preenchidas de livros, que está no quarto da minha casa universitária. Se na minha perceção passo a olhar essas estantes, com os seus livros, como os objetos transacionáveis que também são, tenho aí um mapa de uma boa parte da minha memória.
Daqueles que comprei, lembro sempre o lugar da aquisição, a circunstância cronológica e a forma da minha esperança (que, por vezes, me permite extrapolar para uma fase específica do meu ser). Daqueles que me foram oferecidos, lembro tudo isso, acrescentando uma reflexão desses aspetos na pessoa que mos ofereceu, na relação que tinha comigo.
Mas isto pode bem não ter propriamente que ver com livros, ou antes, com a palavra, como queria argumentar. Isto acontecerá com os pertences de qualquer pessoa, e em mim os livros terão nisso uma força particular porque já são os meus objetos predilectos.
O segundo, e último, desses instrumentos é o conjunto das minhas notas de escrita. Vai buscar muito do que se aplica nas estantes, mas de um modo ainda mais agudo.
Desde finais do meu ensino secundário que escrevo notas de pensamentos que, posteriormente, acho por bem desenvolver. A quantidade e frequência dessas notas tem evoluído quase exponencialmente desde que as experimentei. No início, eram umas notas, quase de semana a semana, escritas no topo das folhas dos cadernos escolares. Depois, fui comprando cadernos vocacionados para elas. Escrevia-as com algum desenvolvimento, mas já ia deixando várias incompletas, para mais à frente iniciar outras. Fui intuindo que começava a não estar a conseguir acompanhá-las, isto é, a desenvolvê-las completas na proporção em que elas me ocorriam. Estive então bastante tempo numa fase em que, ou despendia mais tempo a completá-las, ou trabalhava numa forma de sintetizá-las de tal modo que me permitisse, mais tarde, entender a sua essência e retomá-las. Fui sempre fazendo um pouco de ambas as coisas, e os cadernos foram somando-se. Depois, principalmente por imediatismo, comecei a escrever estas notas no meu telemóvel, ou antes, nos meus sucessivos telemóveis. Mantinha-se o mesmo problema entre o desenvolvimento e a sintetização, mas o volume delas crescia. Fui assumindo a posição de deixá-las mais incompletas do que inexistentes. Os meus telemóveis foram enchendo-se de notas, depois também o meu computador (porque fui estudando muito através dele), e hoje tenho centenas de notas. Abrando-me agora principalmente através de vários filtros: um entendimento mais económico da escrita, uma aposta na riqueza dos textos (e não tanto no seu desenvolvimento linear) ou este blogue onde escrevo.
Ou seja, involuntariamente, criei assim um sistema paralelo a mim, constante e mais do que diário. O curioso é que, de uma grande parte dessas notas (que são centenas como já disse, e estão espalhadas por sete anos), eu lembro, para cada uma, como para os livros na estante, aqueles aspetos circunstanciais da sua escrita.
Por exemplo, leio aqui esta nota bastante antiga e lembro-me que me ocorreu depois de sair de casa da minha avó, e sei precisamente em que lugar do passeio eu estava. Leio outra e lembro que estava na cantina, a jantar, e sei muito bem a mesa onde estava. Leio outra e sei que estava no chuveiro, num fim de tarde de Verão, em minha casa, depois de ter ido dar uma corrida.
Note-se que estas notas que aqui escolhi para servir de exemplo estão distanciadas entre sim por anos (do início até há poucas semanas), que o conteúdo de cada uma não me é sequer particularmente saliente (muito menos se relacionam com o lugar e situação onde me ocorreram), e que estão entre as centenas de outras que tenho guardadas.
Também é verdade que esta memória já foi mais completa do que é hoje, talvez porque o volume delas começa a ser enorme, e porque muitas agora desenvolvo logo, fazendo normalmente em estilo curto, e porque – confesso – já não me permito a cansar-me tanto por elas.
Mas guardo a esperança de continuar a encontrar-me, e a estar entretido, nelas.
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