Estávamos em pleno Verão.
O ano, com os seus trabalhos, afazeres que eram para fazer, afazeres que depois não eram… já deixado para trás, assentado.
Fazia muito calor. Tempo seco também, aquele tempo de terra do interior.
Já por lá estava há bastantes dias. Dias que vinham sendo horas, passadas languidamente, até que a noite chegasse com alguma frescura.
Tínhamos combinado que ia visitá-la, uma destas tardes. Eu pegava no carro e ia até casa dela.
Num destes dias tinha chegado o dia, e conduzi para lá. Ia sem qualquer pressa, nem ansiedade. Para além disso, o imenso calor que continuava a fazer parecia emprestar-me uma pose acrescida de homem: ligeiramente cansado, lento, algo impaciente já para bastante coisa. Pensava nisto enquanto seguia pela estrada. Ia fazendo as curvas do caminho com um domínio calmo, patriarca.
Cerca de meia hora depois, numa berma que apanhei sem árvores, vi a casa dela, já algo perto. Era numa colina, num topo. Lembrava-me que tinha uma vista deslumbrante, para um vale de caminhos perdidos.
Ao chegar à casa, ao terreno dela, senti algum peso de solenidade no momento que estava para vir.
Aquele calor, no entanto, silenciava tudo. Acontecia só o carro a entrar, roçando gentilmente a gravilha.
Longamente, abrandando, parei. Travei, depois. Rodei a chave. Tirei o cinto. Conferi os bolsos. Peguei nos óculos de sol.
Ainda dentro do carro, olhei em torno, através das janelas. A paisagem era um campo aberto. O sol vibrava já na chapa da carroçaria.
Saí do carro, e fechei a porta. O batente metálico ressoou dispersado, no redor onde não havia qualquer outra casa.
Enquanto colocava os óculos, sorri brevemente para mim, reflectido no vidro. Porque não precisava já de levantar os olhos para saber que ela estaria mesmo ali, a observar-me, encostada a um pilar do alpendre.
E ela lá estava. Foi assim que a vi, quando me virei. Quieta, como o calor do fim da tarde. Num dos lados encostada ao pilar, no outro a anca tão saliente sob o vestido comprido.
Subi as escadas, até ela. Cumprimentámo-nos, com dois beijos mais para o citadino, para aligeirar o momento. Entrámos pelo alpendre, que dava entrada para a sala.
(a pele é um ser cego, que nos veste, e normalmente só conhece meses e meses de ar que passam nela. Não sabe durante quantas milhas anda perdida, até que inesperadamente se vê encontrada com uma outra pele desejada, e aí toda ela treme, toda ela rejubila, como que despertando da sua exterior natureza morta)
Éramos só nós os dois, no sofá, em toda a casa. Era quase obsceno o modo tão macio como seguíamos a conversa. Seguia com a evidência de poder ser sempre mais longa, ou eterna. Nos monólogos dela, aqui e ali, perdia-me um pouco a olhar-lhe para trás, pelo vidro onde pássaros às vezes passavam, na tarde poente.
E o riso deu-se imensas vezes, e era extremamente delicioso. E, num deles, estava eu ainda em riso, quando ela se inclina para mim e me dá um beijo quente e ternurento na cara. Mas a conversa seguiu imperturbável, embora a partir daí o meu peito estivesse louco, e sonolento ao mesmo tempo.
Entretanto, disse-me: “vou só ali buscar um copo de água, já volto”. Levantou-se e foi. E estava eu já, de novo, a olhar para o poente.
Sozinho, ia fazendo contas ao meu coração.
(lá dentro ouvia-se o jacto da torneira da cozinha)
Sobretudo, pensava naquele beijo. Mastigava os pequenos gestos dele, o modo como ele tinha pousado tão delicadamente em mim
(saciado, agora o fundo espesso do copo a assentar na banca)
Poderia ser que tudo fosse acontecer outra vez? Os lábios dela falavam, falavam, e eu derretia por dentro, o poente não me valia para distracção, os gestos dela balançavam-lhe o cabelo, os pés descalços dela no sofá… poderia ser esta a hora? Ou, então, teria eu sequer o direito de não viver isto?
(tanto tempo já desde a cozinha até aqui – ocorreu-lhe num canto do pensamento)
Mas, na casa dela? Depois de tanto que aconteceu? Então e o beijo, sim, e o beijo?
(e ouviu um leve ranger do soalho – quase que o acordava das ideias – mas pensou se ela estaria a voltar sorrateiramente, pensou “porquê isso?”)
E entre isso sente, depois de intuir uma decidida paragem dela, nos pêlos da nuca, o som sedoso de um tecido algodonado, à distância, deslizando descendentemente, alternado, sobre pele, sucessivamente mais solto.
Os passos – felinos – aproximavam dele como que mais resolvidos.
Soavam-lhe familiarmente nus.
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