Estávamos em pleno Verão, o ano já deixado para trás, assentado. Muito calor, tempo seco de interior, horas passando languidamente até que a noite chegasse com alguma frescura. Tínhamos combinado que ia visitá-la, uma destas tardes. Eu pegava no carro e ia até casa dela.
Chegado o dia, conduzi para lá sem qualquer pressa. O imenso calor parecia emprestar-me uma pose acrescida de homem: ligeiramente cansado, lento, algo impaciente já para bastante coisa. Fui fazendo as curvas do caminho com um domínio calmo, patriarca.
A casa era numa colina, com uma vista deslumbrante para um vale de caminhos perdidos.
Então chegava à casa, ao terreno dela, o carro roçando gentilmente a gravilha. Longamente, parei, travei. Rodei a chave. Tirei o cinto. Conferi os bolsos, peguei nos óculos de sol.
Olhando em torno, pelas janelas do carro, era um campo aberto, e o sol vibrava já na chapa da carroçaria.
Depois que saí, fechei a porta. O batente metálico ressoou dispersado, no redor onde não havia qualquer outra casa. Ainda virado para o carro, enquanto colocava os óculos, sorri brevemente para mim, porque não precisava já de levantar os olhos para saber que estaria mesmo ali, a observar-me, encostada a um pilar do alpendre.
E ela lá estava, quieta como o calor do fim da tarde. Num dos lados encostada ao pilar, no outro a anca tão saliente sob saia comprida.
Subi as escadas, até ela. Cumprimentámo-nos, com dois beijos mais para o citadino, para aligeirar o momento. Entrámos pelo alpendre, que dava entrada para a sala.
(a pele é um ser cego, que nos veste, e normalmente só conhece meses e meses de ar que passam nela. Não sabe durante quantas milhas anda perdida, até que inesperadamente se vê encontrada com uma outra pele desejada, e aí toda ela treme, toda ela rejubila, como que despertando da sua exterior natureza morta)
Eramos só nós os dois, no sofá, em toda a casa. Era quase obsceno o modo tão macio como seguíamos a conversa. Seguia com a evidência de poder ser sempre mais longa, ou eterna. Nos monólogos dela, aqui e ali, perdia-me um pouco a olhar-lhe para trás, pelo vidro onde pássaros às vezes passavam, na tarde poente.
E o riso deu-se imensas vezes, e era extremamente delicioso. E num deles, estava eu ainda em riso, quando ela se inclina para mim e me dá um beijo quente e ternurento na cara. Mas a conversa seguiu imperturbável, embora a partir daí o meu peito estivesse louco, e sonolento ao mesmo tempo.
Entretanto, disse-me: “vou só ali buscar um copo de água, já volto”. Levantou-se e foi. E estava eu já, de novo, a olhar para o poente.
Sozinho, ia fazendo contas ao meu coração (lá dentro ouvia-se o jacto da torneira da cozinha).
Sobretudo, pensava naquele beijo. Mastigava os pequenos gestos dele, o modo como ele tinha pousado tão delicadamente em mim (agora o fundo espesso do copo a assentar na banca, saciado).
Poderia ser que tudo fosse acontecer outra vez? Os lábios dela falavam, falavam, e eu derretia por dentro, o poente não me valia para distração, os gestos dela balançavam-lhe o cabelo, os pés descalços dela no sofá, poderia ser esta a hora? ou, então, teria eu sequer o direito de não viver isto?
(tanto tempo já desde a cozinha até aqui – ocorreu-lhe num canto do pensamento)
Mas na casa dela? Depois de tanto que aconteceu? Então e o beijo, sim, e o beijo?
(e ouviu um leve ranger do soalho, quase que o acordava das ideias, mas pensou se ela estaria a voltar sorrateiramente, pensou porquê isso?)
E entre isso sente, depois de intuir uma decidida paragem dela, nos pêlos da nuca, o som sedoso de um tecido algodonado, distante, deslizando descendentemente, alternado, sobre pele, sucessivamente mais solto.
Os passos – felinos – aproximavam dele como que mais resolvidos.
Soavam-lhe familiarmente nus.
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