Ultimamente, e muitas vezes a reboque de notícias de avanços na área da inteligência artificial, tem-se discutido o papel que essa tecnologia, uma vez desenvolvida ao nível que mediaticamente promete, terá ao nível do emprego e, consequentemente, nas sociedades.
Ainda que não tenha procurado assim tão profundamente por respostas, noto que elas não têm surgido com grande desenvolvimento, o que me parece inquietante, ainda que conceda que esta seja uma questão altamente complexa.
Sobre isto fala-se de várias coisas. Fala-se do exemplo prévio que foi a Revolução Industrial. Realça-se que, não só no plano dos indicadores económicos e sociais, mas também no das mentalidades, esse foi um processo que se acompanhou de longos anos de busca por um “equilíbrio”, ou uma “normalização”, sociais.  Fala-se da paralela capacitação dos trabalhadores, necessária para que possam ter estado na crista da onda da evolução tecnológica, e não submergidos por ela. Fala-se, para a actualidade, de mitigações destes eventuais efeitos sociais, como seja a instituição de um rendimento mínimo individual (pago pelo Estado? pago pela taxação directa das empresas detentoras dessa inteligência artificial que, indirectamente, destroem empregos?), e antecipam-se as consequências que tais medidas terão ao nível da estrutura económica das nossas sociedades, da sua ideia de Justiça, etc.
Ao contrário do que muitos pensam, o problema do impacto da evolução tecnológica no emprego não se limita às revoluções tecnológicas (como será, provavelmente, a da inteligência artificial). O que acontece é que, na dinâmica entre evolução tecnológica e adequação da capacitação humana, há épocas de ajuste e épocas de desajuste.
Porque não são simplesmente “máquinas” aquilo que “destrói” empregos. Tudo o que seja inovação, até objectos, até novos modos de gerir recursos humanos, contribui para destruir empregos, e isso é até uma medida de eficiência dessas inovações. No modo como o surgimento destas inovações podem afectar o emprego impera ainda uma outra dinâmica, entre o que são as necessidades humanas e a disponibilidade para a sua satisfação ser assegurada mais directamente por mão-de-obra.
Tomemos o exemplo de várias tecnologias que podem implicar com um bem essencial que é a água: uma garrafa de água, um sistema automatizado de distribuição de água, a fluoretação das águas públicas.
Uma garrafa de água é um objecto, produto da evolução tecnológica, que, ao permitir-me armazenar e transportar água, dilui, pelo menos, a intensidade de uma unidade de mão-de-obra: neste caso, do “trabalhador” que eu mesmo sou. Dependendo do balanço entre a premência que terá essa necessidade específica e os ganhos de tempo que esse objecto me concede, aí temos ganhos, ou perdas, de produtividade, assim deslocada para outras áreas.
Antigamente, e isso ainda o vemos em tantas aldeias africanas, todos tinham, em nome próprio ou familiar, que deslocar-se por longas distâncias para obter, de furos subterrâneos, água para suprir as necessidades diárias. A partir do momento em que foram desenvolvidos sistema automatizados de distribuição de água, toda esta mão-de-obra se diluiu, deslocando-se para outras áreas, para suprir outras necessidades, que, novamente, podem ser mais simples ou mais sofisticadas.
Se pensarmos que a adição, já implementada em vários países desde meados do século XX, de flúor na água distribuída pela rede pública, contribui para a redução das cáries dentárias na população, então aí temos uma nova diluição de mão-de-obra, desta vez nos profissionais de saúde. De novo, o mesmo raciocínio se aplica.
Até que produtos ou serviços sejam suplantados ou deixem de ser eficientes em si mesmos, a produtividade concentra-se e refina-se em estruturas cada vez mais especializadas. Por exemplo, neste momento, o único modo de resolvermos a necessidade de estarmos calçados é o sapato. Como essa tem sido a única resposta a essa necessidade, fomos especializando o sapateiro (mesmo se com máquinas em torno dele), porque o recurso humano, neste caso, ainda não saiu do centro da solução desta necessidade.
Esta necessidade de especialização acaba por cruzar fronteiras. Se o “melhor” “sapateiro” estiver na China (isto é, se tudo o que contribui para produzir um sapato estiver mais eficientemente na China) então, tendencialmente, vamos vendo os sapatos ser produzidos na China. Cruza fronteiras e alimenta-se a si mesma, gerando e sendo gerada pelo comércio que, por sua vez, ao promover trocas inter-culturais, gera ciclos auto-alimentados de sofisticação de necessidades, e de produção que as satisfaça. Antes de se encontrarem na língua, os povos encontram-se no comércio.
Ainda que, historicamente, este desenvolvimento tecnológico se esteja a revelar altamente positivo, pelo menos para o Ocidente, a verdade é que ele não é intrinsecamente positivo, uma vez que tem importantes factores de diluição do seu valor. Um deles prende-se com a natureza ambígua dos próprios avanços tecnológicos: ao mesmo tempo que trazem benefícios, suprindo certas necessidades, trazem certos malefícios, premeditados ou não, ou nem propriamente malefícios, mas antes compensações que se têm de tomar obrigatoriamente. Os produtos açucarados e a diabetes ou, para continuar com o exemplo da água, o facto da produção de garrafas de água de plástico acabar por poluir o ambiente, são dois desses inúmeros exemplos.
O outro factor de diluição prende-se com a natureza fútil de certas necessidades, especialmente se olhadas na perspectiva de um balanço entre esforço de produção e ganho de produtividade.
Por exemplo, acabo de comer um quadrado de chocolate Milka com Oreo. Quanto esforço terá baseado a produção deste chocolate? Primeiro, há a invenção de dois produtos completamente diferentes. O design que cada um tem. A marca que a cada um suporta. A cadeia de distribuição que o faz chegar até mim. Claro que sobre tudo isto abate que este esforço está muito distribuído ao longo do tempo, e por muitas pessoas, e por pessoas que se especializaram no tipo de contributo que para isto deram, e por um sistema de produção estável e rotinado, e por este até ser um produto composto, resultado da mera junção entre dois que já existiam, mas será que tudo isso se compensa quando eu sei que demorei cinco segundos a comer o quadrado de chocolate, que basicamente todo ele é açúcar da mesma forma que uma maçã é açúcar, e que, apesar do primeiro ser bem diferente desta porque estimula com tanta mais sofisticação as minhas papilas gustativas, isso nem sequer belisca a possibilidade de eu acordar deprimido amanhã, por uma outra razão qualquer?
A Economia é, precisamente, a estrutura destes balanços, e de muitos mais que eu não sei elencar, e de muitos mais dos que toda essa Ciência sabe, actualmente, elencar, ou das inalcançáveis relações entre eles. Para isto existem os indicadores económicos e suas medidas: “produtividade”, “emprego”, “PIB”, “dívida”, “juros”, “lucro”, etc. Os números não cobrem – nem de perto – toda esta estrutura, mas podem-nos indicar se o conjunto destas dinâmicas resulta num estado “bom” das coisas, ou “mau”.
E nem é certo, de todo, que mesmo aquele quadradinho de chocolate, sendo fútil, seja uma absoluta inutilidade. Que outra tecnologia terá sido inventada através da sua génese? Que talentos terá favorecido, em detrimento de perdidos, ou que distribuição terá ele resultado em tudo isso, ao longo de toda a cadeia da sua concepção? Quem diz este quadradinho de chocolate diz um vaivém espacial, ou diz uma guerra.
Tudo está demasiado ligado para apenas poder ser pensado em termos extremos, isto é, para ser pensado apenas naquilo que dá início e naquilo que é fim.
No entanto, voltando um pouco atrás na análise, a verdade é que, supondo tanto desenvolvimento tecnológico no Ocidente, e até tão acelerado, seria de esperar que estivéssemos com problemas muito mais graves a nível de emprego, ou a nível social (pelas mudanças que essa evolução introduz) ou, pelo menos, que não pudéssemos manter a vida tão sofisticada como a que temos hoje (por exemplo, poder chegar a casa, todos os dias, e ver uma televisão que tem 180 canais diferentes, comendo um arroz de pato que encomendámos no supermercado mais próximo, e achar que isso é normal, é bastante surreal).
Em parte, isso não acontece porque todo o esforço que suporta isto está distribuído globalmente. Sem a globalização, dificilmente tudo isto seria possível.
No entanto, noutra parte, creio que têm vindo a ocorrer, de facto, modificações sociais importantes, cujas consequências estejam talvez a passar mais despercebidas. Ou cujas causas não se têm apontado como sendo derivadas desta dinâmica.
Uma delas é o facto de, no Ocidente, ser notório que nos sentimos cada vez mais sós. Objectivamente, é também notório que, num dia, passamos muito menos tempo com alguém, presencialmente, do que antes. Talvez isto aconteça por causa desta especialização a que nos temos que votar, para sustentar esta sociedade que avança impulsionada por aquela dinâmica entre evolução tecnológica e sofisticação das necessidades. Talvez porque a especialização é – e isto, concedo, é mais rebuscado -, em grande medida, um processo impessoal: envolve uma certa solidão, para absorvemos devidamente as competências que constituem essa especialização. Podia não ser impessoal, até porque podemos aprender muito com os outros, no entanto, é sempre mais seguro (isto é, menos susceptível de desvio) que o façamos em solidão, do que com outros.
E há ainda uma outra consequência de uma evolução tecnológica que ocorre demasiado adiantada de uma nova capacitação laboral compensadora. Se pensarmos bem, o caminho mais natural para o escoamento daqueles que ficam sem emprego ou, pior, sem perspectiva de emprego, porque algo da evolução tecnológica lho tirou, é ir “roubar”.
Este “roubar” não quer dizer, de todo, furtar. É mais o roubar do proverbial “roubar para comer”. E tenho visto imenso disto: jovens que começam com uma ideia artística da sua carreira, e depois vemos a vender carros para os programas da tarde da televisão; personal trainers que acabam por inventar mais uma dieta, ou mais uma filosofia de vida; jornalistas que quase passam a inventar notícias; eventuais engenheiros que passam a desenvolver app’s, ou jogos, quase inúteis. E tantos, tantos outros exemplos.
É muito difícil distinguir se tudo isto vem da sofisticação das necessidades que atrás mencionei, ou antes deste efeito que estou a tentar explicar ao nível do emprego (ou de outra coisa qualquer, até porque não sou, de longe, especialista em qualquer um destes assuntos). E eu também não estou a julgar intrinsecamente essas novas ocupações (até porque, se as estou a querer explicar como consequência de um sistema, não faz muito sentido julgar os actores). Aliás, a própria actividade que é eu estar investir tanto neste texto, ou neste blog, pode ser enquadrada nisso.
Mas a questão não é essa. Se cada vez mais pessoas se vêem obrigadas, ou demasiado sugestionadas, a seguir essa via de emprego, que a nível clássico classificamos de artístico ou de entretenimento, então, tendencialmente, tudo o que consideramos como artístico ou de entretenimento vai ter cada vez mais “treta”. Ou seja, vamos viver cada vez mais rodeados de “treta”, até no campo daquilo que, tantas vezes, esperamos que nos “salve” (a arte). Se repararem, outra definição para treta é o, também proverbial, “meio mundo a roubar outro”.
Já venho desenvolvendo esta a ideia há algum tempo, e por isso foi até interessante ter lido um texto, publicado hoje por um economista mundialmente prestigiado, que basicamente diz que, face à nova revolução tecnológica que se anuncia, grande parte dos trabalhadores vai deslocar-se para áreas “marketinguizadas” (até porque os robots não conseguem exercer marketing), o que me parece um argumento válido.
E então, o que é o marketing se não a sofisticação da “treta”? Todos o sabemos bem.
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