Claramente eu tenho um problema, um sentimento ambíguo para com a adultícia, ou a velhice.
Por um lado, vejo o arraso daquilo, claramente muito para lá do que um plano de responsabilidades sociais e familiares naturalmente possa causar (a não ser que, mesmo após debruçar-me e observar tanto sobre isto, continue a subestimar este plano). Vejo o desnorteamento, a desesperança, o cansaço inexpugnável e infinito, o ridículo.
Por outro, poucas coisas me excitam tanto como as obras da maturidade. Não é o mesmo que “obras-primas”. Obras da maturidade, para mim, são aquelas onde eu vejo, claramente, em marcas tão subtis (será que as invento?), a primazia de um domínio natural sobre o que se está a tratar, com uma postura completamente humilde, que então se reflete numa obra limpa. São obras onde, com a seriedade de nelas se fazer, primeiro que tudo, o que é preciso fazer, depois não se deixa de fazer o que se quer fazer. São composições que realizam esse balanço como se não fosse mais um balanço, mas um simples estilo. E como me comove e conforta que quem é tão melhor do que eu continue a começar por resolver as obrigações, porque sinto parentesco nesse modo de andar pelo Mundo, e de receber os dias.
Na minha visão, é algo como isto que une, e assim me faz adorar, por exemplo, as crónicas do Pedro Mexia (tirando-se-lhe a desesperança, que me parece ainda destilada de um tom adolescente), as do Vasco Pulido Valente (tirando-se-lhe a arrogância, ou a porção dela a que ele não tem direito), os cozinhados das minhas avós (tirando-se-lhe o pragmatismo quase cego), as músicas dos álbuns mais recentes do Mark Knopfler, a obra do Leonard Cohen (surpreendentemente desde tão cedo), entrevistas relativamente lacónicas de intelectuais consagrados (tirando-se-lhe as tentações para reentrarem em jogos políticos).
Por outro lado ainda, é mesmo aí que eu quero estar. E embora saiba que esses não são lugares onde o presente viva, não consigo interiorizar o peso dessa consequência.
Porque depois há a questão do prazer nesses lugares, que é uma questão que, admito, não sou capaz de compreender. Tem para mim tanto de sublime e evidente como de insondável.
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