Um tímido que permitiu e acalentou em si a construção do amor como maior possibilidade redentora.
Alguém que, assim, se vê comprimido entre uma força interna e uma externa, cada uma inevitável.
Uma aposta nitidamente desastrosa. Nem é preciso grande psicanálise para chegar aí.
Fala-se de modo teórico do dualismo mente-matéria, mas há por aqui uma dimensão bem concreta dessa questão: uma vida que, ainda muito antes de ser capaz de articular abstracções, se vê cruamente afectada por elas – a timidez primeiro, o amor depois. Ainda que sejam intrinsecamente abstracções, o mundo está saturado de pistas que as definem, pelo que não podemos evitar viver com contornos bastante claros delas.
São estes os ingredientes para um dilema, e para uma espécie de jaula, se esse dilema ocupa muito da vida.
Ora os dilemas, primeiro que a qualquer outra coisa, obrigam a válvulas. A fugas, tomadas com grande variabilidade de peso, de responsabilidade. E, se não devem logo a isso, devem pelo menos ao contornar. Mesmo quando os próprios elementos do dilema evoluem paralelamente ao ser.
Acredito que, numa grande medida, as palavras que exercito escrever são ensaios de contornos para essas abstracções, também porque as palavras são abstracções elas mesmas. Só há guerra se ambos os lados tiverem as mesmas armas relativas.
Mas as palavras levantam depois questões inusitadas, que depois obrigam a colaterais incursões teóricas. E então entra-se num mundo de ricochetes, de pirâmides que se erguem, e depois tombam. Ao mesmo tempo, a construção da própria identidade (para não falar de tudo o que suscita e fundamenta as nossas acções) começa a querer sorver desses investimentos, e o que era exercício vai-se impondo como hábito, e depois como indispensável visão.
O dilema alimenta o desejo pela sua resolução, e os métodos de resolução aumentam o âmbito do dilema.
Tudo isto por culpa dos Sumérios que passaram de uma escrita parcial para uma completa?
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