A minha faculdade – e falo da minha porque é a única que conheço com a profundidade de a frequentar – tem claramente um problema pedagógico ou, pelo menos, um evidente défice de eficiência pedagógica.
É um quadro mais ou menos típico: alunos sentindo-se obrigados a estar presentes nas aulas, professores pouco preocupados, ou sem condições propícias, para desenvolver um discurso pedagogicamente linear e coeso, clima de ansiedade na participação, professores cansados e mal compensados (ou não-pagos), alunos prejudicados em estruturas horárias mal pensadas e injustas, baixa diversidade de abordagens pedagógicas… e acho que posso ficar-me por aqui.
Certamente que haverá um conjunto complexo de pequenas causas para explicar muitas destas pequenas ineficiências, mas, para mim, há duas grandes explicações a basear esta ineficiência, a um nível global: o facto de termos um sistema universitário relativamente recente na sua índole massificada (em comparação com países tidos como mais desenvolvidos, que não apresentarão este grau de ineficiência pedagógica) e o facto de esse sistema estar cronicamente subfinanciado (e, no meu contexto, em certa medida também um sistema de saúde, em constrição já algo prolongada).
Ou seja, isto deverá explicar sobretudo as componentes administrativas, tecnológica e infraestrutural desta ineficiência. Contudo, refiro-me a “componentes” porque ainda não me convenço de que basta isto para explicar uma parte substancial do problema que aqui se analisa. Tal como fiz aludir no “quadro típico” que atrás traço, julgo que há um problema na dimensão humana da relação pedagógica entre docentes e discentes.
A preponderância do problema nesta dimensão ou, antes, o grau de banalidade daquele quadro, também poderá ser explicado pelo espaço que aquelas grandes explicações deixam do que através delas não se faz: num clima institucional, ou empresarial, financeiramente constritivo, o mais natural é que se tente que a eficiência seja mais obtida dos recursos humanos (porque eles são a base e essência das construções institucionais, e quase sempre restantes no contexto de políticas constritivas). Ou seja, por via daquele clima ter-se-á evidenciado mais o pendor humano desta problemática, o que ter-me-á permitido identificá-la.
Ora se estamos numa dimensão humana, então o mais provável é encontrarmos também uma dimensão cultural. E é aqui que reconheço um problema importante, que tem sido pobremente abordado, a meu ver: estamos a ensinar heurística protestante através de pedagogia católica decadentista.
Em termos concretos, misturamos a “guidelinização” com a oratória unívoca e de pedestal, e com a aprendizagem memorialística; desvirtuamos a prática, e a aprendizagem pela via da prática, com a arrogância do academicismo teorista, herdeiro do pior bibliofilismo; subvertemos a avaliação, convertendo-a de um exercício validador para uma prova expurgadora.
E podia continuar. Vivemos pedagogicamente mal muito porque vivemos nesta ambiguidade. Temos sido gerações que vivem sobre isto, e que não têm resolvido isto. E isto não significa que se produzam maus profissionais (nem em termos relativos, até porque noutros países, e mesmo naqueles tidos como desenvolvidos, outros contextos problemáticos estarão a fazer o seu papel), mas com certeza que significa que se produzem profissionais de um modo sistematicamente sub-óptimo. E significa, se esta foi uma boa identificação de um problema, que assim, pelo menos, talvez o possamos ver claramente, para o abordar.
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