Para vermos o poder que as estações do ano têm em nós é muito simples, por exemplo, nestes dias o calendário é já de profundo Inverno, mas nem sequer ainda chegámos a sentir o inequívoco toque dele, e então estes meses têm sido estranhos, porque todos saímos do Verão com aquela normal preparação de apneia para o Inverno, em que temos que nos acalmar e estar a trabalhar bem nas coisas, tudo bem, e estivemos então nessa apneia não é, temos estado, a aguentar sempre mais um pouco, e os dias passando e sempre o mesmo sol, olha outra vez mais um dia de calor, o céu impavidamente azul como se não fosse nada com ele, e agora que é fim de Novembro (repito para a posteridade: fim de Novembro) e continuamos nisto já passámos portanto a barreira do absurdo, que é então dizer que passámos a sentir tudo isto como normal, e de facto passámos a senti-lo, mas é mais do que isso, onde eu queria chegar é que sente-se já uma Primavera nas pessoas, sim, uma coisa extremamente breve, um estado frágil das coisas como uma flor num cristal de neve, e eu hoje até comecei a notar que nessa mesma fragilidade despontaram até casais de Primavera, eles são a causa e a prova deste reconhecimento, é mesmo verdade olhem à vossa volta, eu próprio hoje por exemplo cheguei a casa e quando pensei nela, uma nova mulher em mim, foi com essa cor no pensamento que a amei, foi com essa frescura que as imagens do que queria fazer com ela me passaram nos olhos, sim, sem sombra de dúvida que estamos numa Primavera, e que bom que isto é e que lindo e que triste que de certeza que está mesmo para acabar também, mas se é assim então espera e deixa-me dizer-lhe qualquer coisa sobre tudo isto tudo isto que tem explodido no meu pensamento, pode ser que eu chegue a tempo, isto é que nas primeiras rajadas do vento cortante estejamos já mesmo na rua que dá para a minha porta enquanto te trago para casa, e queira também Deus que estejas já no meu sofá quentinha depois do jantar que fui tão feliz a fazer para ti antes que comece a chover amor (deixa-te estar sossegada no escuro da sala enquanto eu lavo os pratos), pois é, estamos numa mesma manta aveludada e pode bem chover o que quiser nas janelas que a nós aqui nada chega.
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