Sem dúvida que do que eu gosto mais na televisão é de tê-la ligada sem som.
Torna um objeto doméstico e de ar meio estúpido de quadrado macrocéfalo num com força espiritual, e até metafísica: se da televisão podemos dizer que é a anti-paz, a tagarelice, o ruído, tê-la assim branca é um fortíssimo modo de ter paz.
E fazemos assim zapping, com essa calma também no dedo. A ver os canais passar, calados: circunstâncias tão diferentes, pessoas tão diferentes, planos de filmagem, emoções, particularizações do mundo, tão diferentes. Por um botão, um botão apenas, todos desfilando, silenciosos, à nossa frente. Paramos brevemente em cada um e é como se víssemos o silêncio revelar a invisível e falsa câmara que apresenta tudo o que nela ali vemos.
(hoje a chuva que até agora me tinha apenas ficado pelos olhos caiu-me enfim na alma.)
Como se desse para entender – sentir até – imediatamente, o baixo embuste que é este tempo.
E o modo de estar ligada ou desligada é quase sobreponível ao acender ou ao apagar em nós do sentimento de sermos modernos.
Ás vezes faço isso como os ratinhos de laboratório carregam nos botões das recompensas. Só para ver o que há nisto.
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