É já um lugar-comum apontar que este é um tempo frenético, e que há demasiadas coisas, demasiado grandes em âmbito e importância na realidade, a acontecer demasiado rápido.
No entanto, quem diz isto, embora dê a ideia de que poderia dar inúmeros exemplos disso, ou não chega a dizê-los ou diz ainda mais lugares-comuns (que isto é da “Internet”, ou das “redes sociais”, ou das “tecnologias”, ou do “mercado de trabalho”, etc.)
Se me é permitido tentar dar um exemplo real que essas mudanças podem gerar ou que já estão até a gerar, digo que este tempo tem a propriedade de estar a formar demasiadas mundovisões diferentes, e que o problema não está nessa abundância per si, mas antes no facto colateral de as mundovisões, para sobreviverem, terem que estar obrigatoriamente alojadas em estruturas psicológicas diferentes (quase respectivas) que, por sua vez, para existirem, competem com outras estruturas psicológicas, mais antigas que aquelas, que por sua vez estavam a sustentar certas mundovisões e estruturas sociais.
(Ou seja, basicamente o que eu acabei de dizer foi que as coisas estão a mudar talvez demasiado rápido para sentirmos segurança psicológica, individualmente falando, nessa mudança. Mas digo-o daquela forma precisamente porque quero aqui perceber, o mais concretamente possível, o que está a mudar e para o que pode mudar.)
Um exemplo de uma consequência: as “coisas” estão a mudar tão rápido que, por exemplo, uma criança, enquanto cresce, pode ver-se obrigada a mudar de sonho de vida – porque sempre é a sociedade que determina a sua validade – mais vezes do que aquelas que a psicologia com que foi criada – ou a própria psicologia humana – lhe permite arcar sem se desestabilizar mentalmente.
Devemos lembrar-nos que, na maioria das antigas psicologias, o sonho era uma condição altamente influenciadora, e muitas vezes até determinante, para a maturação do indivíduo. Se isso se mantém e o sonho muda – porque a própria sociedade muda demasiado – o que é que acontecerá à nossa maturação?
A resposta a perguntas deste género costuma ser sempre a mesma: não haverá aí grande problema porque as pessoas adaptam-se. Ainda assim, este argumento não livra pelo menos os casos que vêm da inter-geracionalidade, e que são já demasiados e demasiado evidentes para poderem ser ignorados. Como exemplo, o facto de a grande maioria das pessoas com mais de 50/60 anos verem televisão, quando a televisão já é, objectivamente, um repositório de irrelevâncias e nulidades noticiosas. E porquê essa persistência? Talvez porque a própria biologia dessas pessoas, derivada da condição da sua idade e da formação cultural que tiveram nas idades jovens, não lhes permite transitarem confortavelmente para outros meios de informação (viáveis, que até nunca deixaram realmente de existir). E este exemplo da televisão é um entre inúmeros que ilustram vários tipos de cisões inter-geracionais, a vários níveis da sociedade: bebés que entendem melhor o valor de tecnologias de informação do que os pais, adolescentes e adultos que não conseguem conversar entre si (por muito boa vontade que tenham nisso) por falta de tópico comum ou visão do mundo partilhada, jovens que só se sentem bem a usufruir de conteúdos criados por youtubers (isto é, conteúdos produzidos por igualmente jovens), e idosos que, talvez já no pico das suas tentativas de adaptação, ganham coragem para sair de casa (os que ainda não estão a definhar em lares), e o que fazem é ir a excursões que viram publicitadas em panfletos perdidos numa estação de autocarros escritos com WordArt e feitos no Paint (naturalmente por outros de psicologia assim “idosa”) e factos sociais ultrapassados, como por exemplo o dos adultos pensarem que os jovens se dão quase todos entre si porque “é natural que isso assim seja” (mas eles não se “dão”, e quem é jovem sabe perfeitamente disso), ou até o facto de jovens, como eu, pensarem que isso será pelo menos ainda válido para as crianças (sinceramente, já não sei responder a isso).
São tantos, tantos os conceitos mutantes. E sinto que tudo isso vem a reflectir-se em mim (talvez do mesmo modo que hoje a maioria dos outros se sentirá também assim ameaçada), na construção da minha subjectividade, que é suposto ser o veio da minha maturação. Por exemplo, perguntas altamente íntimas que se vêm ameaçadas pelo lado social: o que é “publicar” nos dias de hoje? O que é, sequer, “escrever”? Tudo isso faz dificilmente sentido já, quando antes podia bem ser sonho, e foi mesmo… E podem até dizer que isso pode ser meramente uma desculpa queixosa de quem não quer mudar ou, até mais inteligentemente, que essa não é uma queixa legítima uma vez que os tempos sempre mudam e nisso quem realmente se quer salvar salva-se tendo apenas que trabalhar para relocalizar no Mundo aquilo que é essa sua tão preciosa identidade, mas e se eu disser que, em toda esta mudança, terá também o próprio valor psicológico e social da ideia de “dificuldade” mudado, e radicalmente? Pois de que vale empreender algo difícil se, quando chegarmos à altura de obter o produto desse empreendimento, a sociedade já mudou completamente o seu valor? E aqui está um exemplo de como uma nova psicologia vai embater no que era um entendimento material (material!) das coisas, e cria um desfasamento, que multiplicado através de outros casos chegar então a infectar o próprio conceito de realidade.
Há demasiadas coisas na sociedade, que não se conseguem acompanhar umas às outras e, portanto, acabam por viver em mundovisões separadas, e nós alimentamo-nos de tudo isso muitas vezes sem termos tempo de notar as misturas. Estamos, agora sim, a viver a modernidade que a Arte preconizou há já muito tempo: fragmentária, ilógica, frenética, intensa e, ao mesmo tempo, anestesiante.
E é realmente um comboio imparável tudo isto, agora que ele nos chega com maior força do que nunca. Apesar de, com o tema das fake news, ainda termos visto (como há muito não se via) as elites intelectuais (aquelas que ainda conservavam uma réstia de culpa) saírem da caverna e insurgirem-se, até para isso foi já tarde demais.
No meu tempo (e, já agora, antes deste tempo, que jovens podiam dizer “no meu tempo?” Só os que passaram por uma guerra, julgo eu) a modernidade popular era a da pop. E eu lembro-me que, na altura, um dos contra-argumentos mais intelectualmente vanguardistas contra isso (e claro que isto pode ser uma observação enviesada, porque eu seria demasiado novo para apreender uma mais sofisticada abrangência de argumentos) era o de que a Pop apenas estava a fazer uso de artifícios antigos, misturando-os desonestamente e apresentando-os com outras “roupagens”. Terá sido até mais ou menos aqui que muitos intelectuais saíram da cena pública, porque sentiram que podiam bem assobiar para o lado, uma vez que, nessa linha de pensamento, a modernidade popular estaria a ir de encontro ao melhor conhecimento tradicional, e estaria apenas a trabalhar-se para chegar a isso. E outro contra-argumento era o da questão acerca de o grafitti ser arte ou não.

Mas, agora, onde é que estão essas perguntas e contra-argumentos, que pareciam tão fundamentais e incontornáveis? Não estão em lado nenhum, e nem essas perguntas chegaram sequer a ser respondidas… quanto ao graffitti, depois disso foram surgindo memes, e vines e snaps, e outras coisas que, sinceramente, sei que existem de modos muito estranhos mas que eu não conheço, mas que poderia bem dizer que são Arte. E então e a Pop, naquela mistura, em que é que resultou?  Precisamente, na novidade de tempo que temos hoje. Terá sido nela que nasceu o que de novo este tempo é. A própria realidade parece mudar mais rapidamente do que a capacidade colectiva que temos para questioná-la.

Objectivamente, estamos a criar mundovisões com maior velocidade do que a estrutura que antes mais rapidamente conseguia fazê-lo conseguia, que era a religião, e com a agravante de o mercado, dos bens e das ideias, ser hoje ser largamente livre (quando no tempo da religião o das ideias era um regulamentado, pelo doctrinarismo). E todo este mundo é um produto que, por ser tão difícil de conseguir, por estar a acontecer assim, a ser verdade, só pode ser porque o tempo o permite e o gera e, se assim é, se isto é então do tempo, então não voltará para trás.
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