Depois que passei pelo meu primeiro terramoto do desamor, nem foi tanto o esforço de voltar a amar o outro que me passou a custar, foi antes – e bem mais – o incómodo de não poder deixar de ver os típicos modos que tenho a expressar o amor.
Tornei-me, portanto, reactivo contra coisas que eram minhas, e não tanto contra a esfera de um outro, mesmo que aparecido sob o signo do amor. Passaram como que a repugnar-me, na insinuação do amor, as minhas maneiras de sugerir, de tentar, de agradar, de me conter em espera, de insistir, de imaginar, de planear. Enfim, tudo coisas que, ironicamente, o próprio amor me havia feito descobrir em mim mesmo, tempos atrás.
Assim, quando vejo esses modos partir de mim reajo – ainda agora – instintivamente, e recolho-os, como se me castigasse. Tudo isto porque, aos meus olhos, que verdadeiramente desesperam já por uma réstia de futuro, eles serão meramente tristes e viciados ensaios do que me irá levar, eventualmente, à repetição da desgraça que aqui me meteu.
E isto independentemente da pessoa que esteja do outro lado. Porque o amor, olhado bem a fundo, vê-se que é mais uma questão e atracção no próprio do que num outro. Quanto mais penso nisto, mais me vejo ir ao encontro desta ideia.
Ainda que não saibamos o que, pertencendo a cada um de nós, está a ligar entre si toda e qualquer coisa que se deseja (e até, talvez, a ligar tudo aquilo que se venha a desejar), vemo-nos forçados a admitir que isso é mais do ser que cada um é do que de um outro qualquer. Será isto, portanto, um mistério com o qual a vida nos obriga a viver. E temos de aceitá-lo.
Mas sem dúvida que teria sido bom, que teria sido sensato, se eu tivesse sabido, quanto a isto, como separar as coisas. Porque hei de passar a achar que sugestões que faça são emanações condenáveis de uma fragilidade ansiosa, e não confiantes coragens? Porque hei de achar que as minhas imaginações (que involuntariamente se desenrolam para tão longe e a partir de tão pouco, e me faziam gostar tanto de me deixar estar nelas…) são subsistências de infantilidade, ilusões até banais, ou simplesmente refúgios da crua realidade, e não, precisamente, aquilo que o outro quer, e já sabe que o alimenta, e até disso há muito vem necessitando, e mesmo o melhor que eu, porventura, poderei dar?
Não sei separar isto porque estou necessitado. E continuo necessitado porque a duríssima verdade é que, se o desamor nos torna duplamente enfraquecidos – pois em si nos fragiliza e com isso, ao mesmo tempo, nos impede de recorrer atempadamente de novo ao amor, porque ninguém se lança a amar fragilidades implícitas –, só podemos ultrapassá-lo resolvendo a partir de dentro essa mesma fragilidade, e isto precisamente quando, mais do que nunca, não sabemos que outras forças de nós podemos mobilizar para isso.
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